Carrie Bradshaw da vida real – Minha matéria com Lalá Noleto na Glam*

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*Mês passado foi publicada na Revista Glam uma matéria que fiz com a blogueira Lalá Noleto quando ela esteve em Natal participando de um evento. Eu já “conhecia” Lalá de outra vez que ela veio a Natal para o casamento de uma amiga. Deixei um exemplar da revista Salto Agulha com ela e algumas comidinhas potiguares, como castanha de caju e bala de coco =). Ela foi super atenciosa, me ligou para falar da revista e mantivemos contato pelo twitter desde então. Daí ela veio para o lançamento de uma das coleções do estilista Wagner Kalieno e eu paroveitei para bater um papo com ela e escrever sobre toda essa história de blogs, blogueiras, moda e comunicação. O resultado – para quem ainda não viu na revista – foi esse aí embaixo 😉

Escrever, comprar sapatos e frequentar fashion shows.

Essa era, basicamente, a rotina de Carrie Bradshaw no seriado Sex and the City, e um estilo de vida que passou a ser o sonho de muitas mulheres. Quem não daria todos os tesouros (incluindo os guardados no closet) para  viver frequentando os melhores eventos de moda, escrever sobre eles e ainda ganhar dinheiro pra isso? Todo mundo, né? Até porque o closet seria rapidamente reabastecido com os presentes que você ganharia das marcas.

Antigamente, ser jornalista de moda era o posto que mais se aproximava do sonho “estilo Carrie Bradshaw de ser”. Hoje, o cargo de blogueira é o que carrega todas essas expectativas. Lalá Noleto é uma das blogueiras mais conhecidas do país. Por causa do blog, está sempre viajando para participar de lançamentos, desfiles e inaugurações. Ela esteve em Natal para o lançamento da coleção do estilista Wagner Kalieno. Tudo muito corrido, agenda apertada, outros eventos em outras cidades à espera da blogueira.

O roteiro varia pouco: chegada, “almocinho” num restaurante charmoso de cada cidade, presentes esperando no hotel, salão de beleza, cabelo, maquiagem, escolha do look do evento, aparição pública, conversa com as fãs, fotos, fotos, fotos e, ufa!,  aeroporto de novo. Tudo devidamente registrado no Instagram e os melhores momentos em post no blog depois.

Entre a escova e a maquiagem na cadeira do salão de Abiss, conversei com Lalá para entender como a menina que escrevia blogs por hobby na adolescência fez disso sua profissão, e como funciona a engrenagem dos blogs de moda hoje no país.

Do direito à moda

Marcela Noleto nasceu em Goiânia, é formada em direito e chegou a trabalhar  em um dos maiores escritórios de advocacia da cidade. Quando criança, sonhava em ser dona de uma loja de vestidos de noiva. Vem de uma família de médicos e o vestibular para medicina também foi uma opção. Acabou passando para direito e seguindo a carreira jurídica, mas em pouco tempo percebeu que não identificava com a profissão. Não se via trabalhando por muito mais tempo naquilo.

Desde adolescente gostava de ler e escrever blogs. Sempre foi comunicativa, e adorava moda. A história de Lalá começou a tomar outro rumo quando ela conheceu algumas pessoas que trabalhavam na revista Contigo!. Querendo mudar de profissão, fez uma proposta para escrever uma página sobre moda na revista, em formato de blog. O projeto foi aceito e, ainda morando em Goiânia, começou a escrever para a revista.

Depois de um tempo colaborando de longe, a Contigo! reformulou o site e Lalá ganhou espaço também na página da revista na internet. Foi o momento em que ela se mudou para São Paulo e passou a colaborar também com outras publicações, como a Playboy. No site da Contigo! Lalá assinava um blog que passou a fazer muito sucesso entre as leitoras. Assim nasceu o Blog da Lalá.

O blog Falava de moda, e, principalmente, decifrava os looks das famosas. Sempre que alguma atriz aparecia usando um vestido deslumbrante, era correr pro Blog da Lalá e ter a certeza de que ela iria descobrir de onde era a peça e informar às leitoras. “No fundo eu gosto mais de comunicação do que de moda”, costuma dizer Lalá.

Algum tempo depois o blog havia crescido tanto, que chegara a hora da blogueira caminhar sozinha. Hoje o Blog da Lalá faz parte também do F*Hits, um grupo que se define como “A primeira prime network de moda do Brasil”. Noves fora o estrangeirismo, é uma rede que faz a ponte entre as marcas de moda e os blogs. Os clientes da rede aparecem nos blogs das meninas em eventos e “looks do dia” e as leitoras que se encantarem pelas peças podem adquiri-las em apenas um clique, na F*Hits Shop.

Hoje quando não está blogando, Lalá está… Blogando! “Não desligo do blog. Nossa, eu acho que eu só faço isso mesmo: pensar e trabalhar para o meu blog”, conta a moça que diz não ter um hobby específico, e trabalhar todos os dias da semana – menos no domingo. Lalá conta que não imaginou nem planejou essa trajetória, e que não tinha o objetivo de ter o blog como sua profissão. “Eu sempre achei que ia viver de revista. Sou uma pessoa de pouco planejamento, as coisas vão acontecendo e eu vou acompanhando. Sempre gostei de escrever e queria viver disso, o que aconteceu com o blog não foi planejado”, explica.

Talvez esse tenha sido o grande pulo do gato das blogueiras que dominam o mercado hoje. Sem imaginar exatamente onde iam acertar, elas atiraram com mais desprendimento, cada uma à sua maneira. O mercado foi mudando e o hobby ganhou a possibilidade de ser negócio.

Atualmente surgem novos blogs todos os dias e a maioria deles tem o claro objetivo de ser como Lalá e suas companheiras do F* Hits. São blogs que já nascem com suntuosas festas de inauguração e Media Kit pronto. Geralmente não dá certo. O blog não “pega”, não tem naturalidade. Lalá acha que é aí que as novas blogueiras erram. “Acho muito difícil acontecer o que aconteceu comigo de novo com outra pessoa. Na situação atual ela vai ter que ralar muito ou ser uma pessoa já conhecida, porque o mercado já está estabelecido”, opina.

Então, no mar de possibilidades que é a internet, não haveria mais espaço para novos blogs de moda? “Espaço existe sim, mas para coisas diferentes. O grande erro é que tem muita gente começando querendo fazer exatamente igual ao que já existe”, completa.

Não é à toa que as meninas querem copiar as blogueiras. Os blogs estão cheios de anunciantes e a maioria das moças aparenta – pelo menos na internet – ter um padrão de vida muito mais alto que a população “normal” brasileira. Afinal, vestem marcas caras, viajam com frequência ao exterior e frequentam lugares luxuosos. Um tempo atrás a revista Veja publicou uma matéria com a blogueira Lalá Rudge, dizendo que ela chegava a faturar R$ 100.00 por mês com o blog. A notícia rendeu muito bafafá e a blogueira depois disse que a revista não foi fiel às suas declarações. As moças não falam em números de seus faturamentos, mas a imaginação das aspirantes a blogueiras vai longe e só cresce o número de meninas que querem ser ricas e famosas através de um blog de moda.

Vivendo exclusivamente do blog hoje, Lalá Noleto conta que nunca prospectou clientes e que nega parceria com marcas que ela acha que não têm o perfil de seu site. “Nunca fui atrás de cliente nenhum. Eles que sempre me procuraram. E se a marca não tem a ver comigo, eu não aceito. Já neguei muitas parcerias para ser fiel ao estilo do blog e para não soar fake”, conta.

Sobre a relação com as colegas de profissão, ela diz que, ao contrário do que se pensa, as blogueiras se dão muito bem e são companheiras. “Não existe isso de rivalidade, as meninas se dão muito bem. Começou todo mundo meio que ao mesmo tempo, então todo mundo tinhas mesmas dúvidas, passava pelas mesmas situações e a gente se ajudava”, explica. É ifícil para quem está de fora imaginar tamanha cordialidade num universo onde pulsam vaidade, ego e dinheiro, como é a mídia de moda hoje.

Chega ao fim a escova da blogueira e também é o fim da nossa conversa. Ela tem que correr. Vai posar para fotos e seguir para o aeroporto. Descansar quando chegar em casa? de jeito nenhum! Tem mais compromissos do blog esperando. Tudo muito rápido, acelerado. Assim como a moda e as transformações que os blogs promoveram na roda da comunicação.

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O mundo, a Belle Époque e os anos loucos em Natal – Como eram os modos e a moda na Cidade do Sol nos primeiros anos do século XX

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*Texto originalmente publicado na Revista Glam. Vou postar o texto e algumas imagens aqui, mas vale a pena procurar a revista para conferir a diagramação na edição impressa. Ficou bem bonito! 

 Imagem de abertura da matéria na revista. Segue o texto…

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Na virada do século XIX para o século XX o mundo vivia um momento de muita expectativa e grandes transformações. Uma passagem de século não é coisa pequena para a mente humana. A geração atual viveu coisa parecida recentemente e lembra como foram tensos os dias que antecederam o esperado e temido “bug do milênio”.

Mas, voltando a 1899… As transformações advindas da revolução industrial haviam modificado plenamente o cotidiano das pessoas. Os produtos industrializados davam a sensação de conforto, pois diminuíram ou até eliminaram certas tarefas cotidianas. A força humana em várias ocasiões começava a ser substituída pela eletricidade. Passou-se a admirar a ciência e a tecnologia como as mais maravilhosas expressões do homem. Esse período de euforia ficou conhecido como “Belle Époque” – a expressão em francês para “bela época” se deve ao fato de que Paris era então a capital do mundo, e o francês o idioma dominante.

Acompanhando o clima de festa, a moda na Belle Époque era tão efusiva quanto as pessoas. Os espartilhos afinavam a cintura e estufavam o peito, formando uma silhueta em S. Os vestidos eram cheios de rendas, bordados, babados e detalhes. As mangas longas iam além da metade das mãos. As roupas riquíssimas arrastavam no chão – mas isso não era um problema para a alegre classe dominante, pois a tecnologia havia trazido também a limpeza e os cuidados com higiene e saneamento nos grandes centros urbanos. Os chapéus e leques eram verdadeiras arranjos, ostentando penas e até mesmo pequenas esculturas.

A ostensiva moda da Belle Époque, cheia de fru-frus

Esse período vai do fim do século XIX até o início da Primeira Guerra, em 1914. O grande conflito mundial acaba com a Belle Époque quando a mesma ciência e a tecnologia que facilitavam a vida das pessoas, passaram a produzir armas e mecanismos de guerra que serviam unicamente para matar. É uma quebra de pensamento. O homem passa a perceber que tem em mãos o poder de usar o conhecimento para o bem ou para o mal.

A guerra acaba com a sensação de euforia e imprime novos costumes. Quando termina, em 1918, o mundo não é mais o mesmo. As roupas perderam o excesso de fru-frus. Costureiros como Paul Poiret libertam a mulher dos espartilhos, e a nova silhueta não marca a cintura. Começa a era dos vestidos retos, com cintura deslocada, que se transformariam em tubinhos. Com a chegada dos anos 20 esses vestidos ganham franjas para balançar ao som do jazz e do charleston. As barras das saias sobem, mostrando mais pele. O mundo, recém saído de uma tragédia, resolve tirar o pé do freio e se permitir mais. Mais festas, mais sexo, mais bebida. Esse período que se inicia logo após o fim da guerra, fica conhecido como “Os anos loucos”. A figura da Melindrosa, com seu cabelo à la garçonne, olhos pintados, piteira sempre fumegando, ousada, permissiva e divertida, entrou para a história como ícone desses anos loucos.

A milionária americana Peggy Guggenheim usando uma criação do mestre Paul Poiret

 

A prolongada Belle Époque na esquina do continente

Natal não sentiu os efeitos da Primeira Guerra Mundial. A moda parisiense da Belle Époque continuou sendo reproduzida por aqui, mesmo quando a Europa estava devastada e as roupas haviam perdido a maioria dos enfeites. Por isso, muitos autores – entre eles Tarcísio Gurgel, autor de Belle Époque na Esquina – consideram que a “bela época” potiguar se estendeu até os anos 30.

Com a chegada do cinema nos anos 20, a estética parisiense deixou de ser a única a ser seguida e passou a dividir o espaço com a estética Hollywoodiana. O modelo de beleza agora era também a atriz de cinema, e Natal dava seus primeiro passos rumo à americanização. As mulheres esperavam ansiosas as revistas de cinema que chegavam à Livraria Cosmopolita, na rua Dr Barata. Era delas que saiam os penteados, as roupas e a maquiagem que as potiguares mais abastadas iriam usar nos bailes do Natal Club. A vida noturna da cidade fervilhava nos clubes. As festas eram animadas pelas jazz bands ou pelo tango – que durante muito tempo foi até mais popular que o jazz na cidade. “Esses clubes eram estritamente masculinos durante o dia, mas à noite realizavam festas onde os homens levavam suas senhoras.” conta Márcia Marinho, historiadora.

“As leis da moda” num anúncio da revista Cigarra 

O Natal Club foi ianugurado em 1906 e durante muitos anos foi a mais renomada instituição de lazer para a elite natalense. Mais tarde, em 1928, com o boom da aviação, surge o Aeroclube – que existe até hoje na cidade. O “Aero”, além das atividades de aviação, reunia num só lugar os espaços para esporte, recreação e festas noturnas. Esse estilo de clube acompanhava os novos gostos do natalense. A prática de esportes havia sido incorporada à rotina da cidade, como parte importante para a sociabilidade e o lazer. Primeiro os esportes náuticos, com as regatas no Potengi; e mais tarde, o futebol. Foram fundados os clubes ABC e América em 1915, e Alecrim em 1916. Quando chegam os anos 20 o natalense já adquiriu o hábito de assistir às partidas de futebol aos domingos, como faz até hoje.

 

Descobrindo as roupas de banho

Ao mesmo tempo, a praia passa a ser percebida como um espaço para diversão e lazer. Antes disso, apenas os doentes tomavam banho de mar, pois a prática era recomendada pelos médicos como tratamento para várias doenças. Quando o natalense descobre a praia, a moda acompanha a novidade.

Os primeiros trajes de banho eram pesados e cobriam praticamente todo o corpo. Em “Belle Epoque na Esquina”, Tarcísio Gurgel transcreve trecho do livro “Reminiscências”, de Octavio Pinto, onde é descrito o complicado ritual dos primeiros passeios praianos em Natal: “Iniciando o verão, a costureira Santa (…) fazia para as minhas irmãs as roupas de banho de fenda azul encorpada, com frisos brancos, compreendendo uma calça tipo bermuda, com um elástico na boca que prendia no meio da perna. E a túnica com meia manga com cinto de pano branco, mais parecendo um macacão. Os rapazes usavam calção e camisa esporte. Nunca tiravam a camisa. Pela manhã muito cedo, antes do sol nascer, tomávamos o bonde defronte de casa, na Av. Deodoro. (…) Saltava-se no final da Av Atlântica, em Petrópolis, e de lá se descia a ladeira até a Casa de Banhos, que tinha duas filas de quartos onde se mudava a roupa. A praia a princípio se chamava do Morcego, depois mudando para do Meio, porque ficava entre as praias de Areia Preta e a do Forte dos Reis Magos. (…) Também ia conosco um empregado  com um cesto para trazer as pesadas roupas molhadas (…)”.

 

A curta e intensa vida da Cigarra 

Foi nos anos 20 também que circulou uma das mais emblemáticas revistas já editadas na Cidade do Sol. A revista Cigarra teve vida curta porém intensa. Foram apenas cinco edições – entre os anos de 1928 e 1930 – mas era feita por colaboradores que entrariam para a história das letras potiguares, como Palmira Wanderley, colunista fixa da publicação.

Capa da edição 3 da Cigarra, por Erasmo Xavier

A revista contava com o talento do desenhista Erasmo Xavier, responsável pelas capas de todas as edições e pela maior parte das ilustrações. Nascido em 1904, Erasmo passou a juventude no Rio de Janeiro e também atuava como cenógrafo, fotógrafo e chargista. A pesar de jovem, o rapaz já era destaque na imprensa carioca com seus desenhos e ilustrações. Colaborou com publicações como O Malho, Fon Fon e Tico Tico, trabalhando ao lado dos grandes desenhistas brasileiros da época e assinou a capa de uma edição da emblemática revista O Cruzeiro. Esta capa ele não chegaria a ver impressa, pois foi publicada em 1933, três anos após sua morte. Assim como tantos jovens talentosos da época, a carreira de Erasmo Xavier foi precocemente interrompida pela “peste branca”, a turbeculose. Morreu antes de completar 26 anos. Os desenhos dele, principalmente as personagens femininas, retratavam os anseios de uma Natal ainda conservadora, dividida entre o desejo de ser metrópole e as limitações morais de ainda ser província.

Anúncio da revista Cigarra chama o natalense para consumir a moda da época na casa Paris em Natal

A praia, o esporte, o crescimento urbano, o cinema, a música… Tudo influenciava o comportamento da cidade que começava a crescer. A moda incorporava todas essas mudanças. As casas de tecido eram o ponto de encontro onde as senhoras compravam as fazendas que iriam se transformar em belos vestidos. Uma das mais famosas era a casa Paris em Natal, na Praça Augusto severo, cujo marketing era justamente fazer alusão aos tão desejados tecidos usados pelas parisienses. Ainda não havia chegado a vez das lojas de roupas. Tudo passava pela costureira. Uma imagem numa revista de moda francesa do pré-guerra e uma atriz num cartaz de filme americano, eram a inspiração para o mesmo vestido de baile potiguar.

E tentando copiar Paris e Hollywood, quem diria, a Natal do início do século XX acabava tendo um estilo próprio – mezzo Belle Époque mezzo Melindrosa.

 

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Para continuar no tema…

Veja – Meia Noite em Paris (Woody Allen); O Grande Gatsby (

 

Leia – Gisinha (romance potiguar de Polycarpo Feitosa); Belle Époque na Esquina (Tarcísio Gurgel); Natal também civiliza-se (Márcia Marinho)


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Leitura de domingo: Paulo Borges na Glam

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Uma das coisas mais sublimes que pode acontecer na vida de um jornalista é a gente entrevistar alguém que admira e descobrir que essa pessoa é realmente tudo aquilo que a gente imagina.

Foi o que aconteceu uns meses atrás quando entrevistei o Paulo Borges

Quem no mundo da moda não conhece e admira esse cara, não é? Mas o bacana é que, na entrevista, vi o quanto ele é inteligente e tem uma visão de moda sensacional, diferente de muita gente que vive a moda somente pela superficialidade.

Como ele mesmo disse, não está na moda só pela roupa. É um processo muito mais amplo.

E é assim que eu penso também, por isso adorei escrever essa matéria que saiu na última revista Glam. 

A Glam é distribuída gratuitamente e você pode pegar seu exemplar na banca do Tota, em Petropólis. E a matéria com o Paulo Borges você pode ler agora nesse domingo ensolarado 😀

SEU NOME É MODA*

Visitando Natal para divulgar um projeto que movimenta a moda e a criatividade em todo o país, Paulo Borges conversa com a Glam e mostra que é sim tudo aquilo que a gente imagina: talentoso, inteligente, articulado, visionário, genial… ops! Faltaram adjetivos! Ele é o rei da moda brasileira e conhecer sua história ajuda a descobrir o porquê.

 

Em algum momento da década de 80 o futuro da moda brasileira esteve seriamente ameaçado. Paulo Borges nasceu em São José do Rio Preto e chegou a São Paulo no início dos anos 80 para cursar faculdade de Computação e Comércio Exterior. Quase seguiu carreira nessa área, mas um belo dia um amigo precisou de ajuda num desfile de moda e lá foi ele salvar o rapaz. Pronto. A partir daí não parou mais de criar e produzir. Tivesse seguido o caminho da faculdade de computação, o São Paulo Fashion Week não teria sido criado e a moda brasileira não teria evoluído tanto nas duas últimas décadas.

Conversei com Paulo Borges quando ele esteve em Natal divulgando o Movimento Hotspot (ver box) e fiquei surpresa ao ouvir que ele começou a trabalhar com moda “muito por acaso”, como gosta de dizer. Confesso que esperava mais um discurso padrão, do tipo “sempre gostei de moda e sonhava com isso desde criança”. Mas o rei da moda brasileira começou mesmo ajudando a organizar o desfile da loja do amigo, quando nem sabia como se fazia um desfile. “Na verdade eu não sabia o que ia fazer. Fui pra lá pra ajudar  e o que apareceu fui fazendo. Acabou que gostei de fazer aquilo e as coisas foram acontecendo de uma maneira muito natural, até que alguém me indicou para trabalhar com produção de moda na Vogue”, relembra.

Na revista ele foi assistente de Regina Guerreiro. O ano era 1982 e Regina já era uma das mais importantes figuras da moda brasileira. “Quando eu fui trabalhar com a Regina eu não sabia quem era a Regina. Só depois eu descobri que ela era bem maior que a moda”.

Esse transcender a moda que Paulo aponta como característica de Regina Guerreiro também passou a ser uma característica dele. Logo o rapaz enxergou que havia caminhos bem mais ousados para se trilhar na moda brasileira. Percebeu que gostava mais de fazer desfiles e eventos do que trabalhar em revista, e partiu para a produção. Começou com o Phytoervas Fashion. O evento evoluiu para o Morumbi Fashion, e logo depois São Paulo Fashion Week.

De lá pra cá as principais transformações da indústria da moda no país foram alinhavadas por Paulo Borges. Hoje ele é dono da Luminosidade, empresa que funciona como uma plataforma de geração de conteúdo relacionado à moda.  A luminosidade cria e desenvolve diversos projetos – das semanas de moda a publicações como a revista ffw Mag!.

Paulo Borges sempre enxergou a moda como um sistema complexo, que vai muito além da roupa. Por isso ele passa longe do deslumbramento que cerca muita gente que trabalha no “mundo fashion”. É o articulista mais importante da indústria têxtil brasileira, e nas ultimas eleições presidenciais promoveu encontros onde entrevistou todos os candidatos para descobrir as propostas de cada um para o setor. Para ele, falta à moda brasileira um plano de desenvolvimento de longo prazo. Também falta educação e qualificação. O número de faculdades de moda que cresce a cada dia no país não significa mais profissionais competentes atuando no setor. Quantidade não é sinônimo de qualidade. “A educação no Brasil se tornou muito comercial, todo mundo busca números, as faculdades querem ter turmas numerosas, mas a qualidade do que está sendo ensinado em muitos lugares é questionável”, lamenta.

O resultado é que o Brasil está (de)formando profissionais que não entendem exatamente o processo da moda. A falta de informação gera ideias erradas e muito deslumbramento. É o mito de que trabalhar com moda é só glamour.  Essa falta de conhecimento gera desvalorização de profissionais importantes na cadeia de produção. “Todo mundo quer ser estilista. O jovem quer estudar moda, acha lindo, artístico, glamuroso, mas não sabe que tem que ter muita técnica e dedicação envolvida no processo. Profissionais como a costureira e a piloteira são desvalorizadas. A pessoa não entra na faculdade de moda querendo aprender a costurar, tem outra visão do que é fazer moda. Deslumbrada, estereotipada. E esse deslumbramento vem da falta de informação” explica Paulo Borges.

Apesar disso, ele é otimista em relação ao futuro da moda brasileira. E não há como não ser. O setor cresceu e se desenvolveu nos últimos anos, mesmo remando contra a maré. Apesar da falta de uma política nacional para o setor têxtil, o brasileiro consome moda como nunca, o que tem fortalecido o mercado.

Com tanta gente querendo comprando – e gostando de – moda, pode-se falar uma moda com identidade brasileira? Isso foi o que a indústria da moda perseguiu durante anos, mas, na opinião de Paulo Borges, esse processo foi atropelado pela globalização da informação. “Não existe mais moda de país em lugar nenhum do mundo. Existe moda de pessoas. É o olhar individual criativo de cada um. É um resultado da globalização. Não a globalização política, mas a globalização da informação. Se eu estou usando uma peça que chama atenção de alguém, a pergunta não é mais de que país ou de onde é, mas sim de quem é. E isso é fascinante”, opina.

Vivemos a era de uma moda global, onde as particularidades e as diferenças vem da vivência e da interpretação pessoal de cada criador.  E essa era tem a bênção do rei Paulo Borges.

 

Movimento Hotspot

“A gente não está na moda só pela roupa. É um processo muito mais amplo, que envolve fotografia, design, arte e muitas outras coisas”. Essa frase de Paulo Borges diz muito sobre seu mais novo projeto, o Movimento Hotspot.

Realizado através da Lei Rouanet, com patrocínio de empresas como Vale do Rio Doce e Riachuelo, o Movimento Hotspot é uma plataforma de divulgação de trabalhos relacionados à criatividade nas mais diversas áreas. O projeto recebe inscrições de pessoas de várias partes do país através do site. Os participantes exibem um vídeo e um texto explicando sua ideia, e as melhores serão premiadas. Os prêmios variam entre R$ 10.000 e R$ 200.000 dependendo da área de atuação.

Paulo Borges viajou o Brasil inteiro divulgando o Movimento Hotspot e tirando dúvidas dos participantes. A ideia é descobrir e premiar pessoas criativas em todo o país, descentralizando o processo que hoje ainda está concentrado nos grandes centros do país – São Paulo e Rio de Janeiro.

É a moda ajudando a descobrir a diversidade que existe ainda escondida em um país de dimensões continentais como o Brasil.

 

*Texto: Gladis Vivane / Fotos: Giovanna Hackradt

 

 

 

 

 

 

 

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