Cabarés da Natal dos anos 40 inspiram a coleção de moda mais linda dos últimos tempos!

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A vida em Natal na época da II Guerra é um assunto que sempre me fascinou. Adoro ouvir as histórias da cidade que, na época, tinha  pouco mais de 50 mil habitantes e se tornou um ponto de apoio para os americanos, recebendo milhares de soldados (fala-se em 10 mil homens).

Imagine uma cidade pequenina, onde todo mundo se conhece, recebendo essas pessoas com costumes, idioma, fisionomia e tudo mais tão diferente! O período rendeu história curiosas e engraçadas e mexeu com o jeito de ser do potiguar, que carrega até hoje o reflexo desse mix de culturas. Já escrevi sobre isso nessa matéria sobre a moda e os costumes de Natal na época da II Guerra. Se você se interessa por moda e história, vale o clique!

natal na segunda guerra Alcides Araújo, dono da Rio Center, atendendo soldados americanos na loja

E uma personagem em especial sempre chamou minha atenção: a prostituta Maria Boa. Famosíssima e muito querida pelos militares americanos, ela era dona do cabaré mais famoso da cidade. O lugar era puro luxo e tinha uma biblioteca com acervo riquíssimo, onde os clientes faziam reuniões e devem ter tomado decisões históricas da mais importantes!

A figura de Maria Boa sempre me fascinou, tanto que tem uma matéria sobre a vida dela na Revista Salto Agulha, versão impressa desse bloguinho – que você pode ler online aqui.

Mas essa introdução toda é só pra vocês entenderem o quanto meus olhinhos brilharam com o trabalho lindo de uma moça chamada Jéssica Cerejeira.

A primeira foto apareceu no meu feed do Facebook como uma mini coleção de uma estudante de moda do SENAI RN, que representou o estado num evento nacional do SENAI Brasil.

desfile jessica cerejeira

Assim que vi os looks corri pro google para saber mais. O evento em questão é o SENAI Brasil Fashion, uma incubadora de novos talentos do SENAI. Eles escolheram 9 estudantes, de 9 estados do Brasil, para criar uma mini coleção – desde a concepção do tema até o desfile. Esses jovens talentos tiveram a orientação de estilistas consagrados como Ronaldo Fraga, Alexandre Herchcovitch e Lino Vilaventura. Esse processo criativo todo vai virar um reality show que será exibido em novembro, nos canais Art 1 e Discovery Channel. Demais, né?

O que achei mais bacana é que o reality não é uma competição. Cada estilista fez o seu trabalho e tudo foi documentado para ser exibido. Todo o processo criativo, as particularidades de cada um e o resultado final. Para isso, as equipes acompanharam cada estilista em sua cidade, registrando o dia a dia de cada um e suas inspirações.

senai-brasil-fashion-desfile As criações dos 9 estilistas no SENAI Brasil Fashion

A representante do RN, Jéssica Cerejeira, se inspirou nos cabarés da Natal da Segunda Guerra, especialmente na figura de Maria Boa. Segue um trecho do release da coleção: “A Coleção ‘Habite-me’ traz o universo kitsch dos cabarés no Rio Grande do Norte, no período que marca a chegada e consequente influência norte americana no estado, durante a Segunda Guerra (…) Uma das maiores referências deste trabalho foi  a Maria Boa. A história da coleção traz a figura de um militar norte americano, que vindo para o RN na década de 40, conhece uma das meninas da casa de Maria Boa e se apaixona por ela, que como tantas, sonhava em mudar de vida, viver um grande amor. Mas a guerra acaba e o militar a deixa. Na despedida, entrega a ela o seu casaco militar, que é incorporado na vestimenta habitual da moça…”

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O resultado são esses modelo belíssimos com silhueta dos anos 40, um toque militar e bordados de tirar o fôlego!

cabares dos anos 40 inspiram a coleção

Foi uma coisa que me tocou demais. Vibrei em ver um trabalho belo e criativo assim, de uma menina tão jovem e talentosa de Natal. E aí fui atrás dela para fazer uma entrevista para o blog, claro!

Descobri que a gente já “se conhecia” virtualmente rs.  Jéssica tem um trabalho super bacana na UFRN. Ela está cursando artes plásticas e faz parte de um Laboratório de criação de figurinos e trajes de cena. Ela havia entrado em contato com o blog um tempo atrás para divulgar esse laboratório, que é aberto à comunidade e tem vários eventos muito interessantes.

Aproveitei pra fazer uma mini entrevista com ela e entendi porque é uma menina tão talentosa e criativa: um misto de curiosidade, estímulo e vivência! Ela nasceu em Imperatriz, no Maranhão, e foi pra Natal com 1 ano de idade. Hoje, aos 20, se considera natalense e olha a cidade com olhos de artista. Tudo é inspiração!

“Minha cidade me inspira pelas belezas naturais, pelas manifestações artísticas, pela hospitalidade e gastronomia. Minhas origens maranhenses pouco me influenciaram, pois saí de lá quando bebê. Mas fui criada por um pai português, militar, que serviu na guerra de Moçambique, muito rígido e cheio de histórias para contar. Minha mãe, natalense, traz para a minha formação vivências mais regionais, principalmente na gastronomia, pois ela dá cursos inclusive, de culinária potiguar, além de estar ligada diretamente com o turismo da minha cidade. Minha terra tem muitos lugares lindos e um sol intenso, o ano inteiro,  que acaba moldando a nossa criação, pois tenho que adaptar a maioria das criações para a realidade ensolarada da minha cidade”, explica.

11898925_1694992267388975_1017236039003236833_n Jéssica com as suas criações <3

O irmão dela é estilista e foi o maior responsável pela paixão por moda: “O meu interesse por moda surgiu aos 10, 11 anos, por influência do meu irmão, que era estilista das Lojas Riachuelo e sempre levava croquis para fazer em casa e os que sobravam, ou os que saiam errados, ele me dava para colorir. Eu adorava!”.

Depois do desfile do SENAI Brasil Fashion ela está com tudo! Só vi elogios ao trabalho de Jéssica e não tenho dúvidas de que é só o início de uma carreira brilhante!

Planos para o futuro?

“Tenho planos de acabar a faculdade, com um TCC que foque em moda, ou até mesmo figurino. Também pretendo continuar a me aperfeiçoar com os cursos mais específicos do SENAI da minha cidade e fazer a pós graduação do Senai Cetiqt, ao mesmo tempo que ingresso no mestrado em Artes Cênicas com foco em figurino, ou na de Design de Moda em outro estado, já que aqui em Natal ainda não existe. Pretendo ainda dar aulas no SENAI-CM, de modo que todo o conhecimento que adquiri ao longo desses 4 anos retornem para o SENAI, meu segundo lar, como forma de retribuição. É falar de realização de sonhos e acima de tudo, que todos são capazes”

Alguém duvida que ela vai realizar muito mais? 🙂

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Entrevista: Flávio Rocha, o homem da Riachuelo

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No último fim de semana o empresário Flávio Rocha, CEO da Riachuelo, anunciou em seu Instagram que a varejista vai abrir uma flagship na Oscar Freire, a rua mais luxuosa de SP (Para quem quiser segui-lo, o perfil é @flaviogr1 ). A nova loja fica na esquina da Hadock Lobo com a Oscar Freire e deverá ser inaugurada em novembro. A ideia é que a loja premium receba as coleções especiais que a Riachuelo faz em parceria com estilistas famosos.

E aí achei que seria uma boa oportunidade para publicar aqui no blog uma entrevista que fiz com Flávio Rocha no mês passado, para a revista Bzzz. A matéria foi capa da edição de estreia da revista e quem quiser conferir a publicação na íntegra é só acessar o site e folhear a revista on line http://www.revistabzzz.com/

Para quem não sabe, a Riachuelo é de Natal. Na entrevista, Flávio Rocha fala sobre a história do grupo Guararapes no RN, o marketing de moda, o varejo no Brasil, a ida da Zara para o shopping que faz parte das empresas do grupo e muitas coisas interessantes para quem lida de alguma forma com o mercado de moda brasileiro – seja como profissional ou como consumidor. 

O texto abaixo é o “original sem cortes”, ou seja, não passou por edição, logo é mais extenso que o publicado na revista. Também destaquei com aspas e letras maiores as partes que achei mais interessantes da entrevista. Enjoy!

Numa semana movimentada em São Paulo, no ápice dos protestos e manifestações que fechavam as ruas, o empresário potiguar Flávio Rocha, presidente da Riachuelo, me recebeu para a entrevista. Como todas as conversas nos últimos dias, esta também começou com um pedido de desculpas pelo atraso, pois estava mais complicado vencer as distâncias e o trânsito da capital paulista. Mas o que um bilionário pensa sobre esse novo momento, as reivindicações e o povo nas ruas?

“Eu vejo tudo isso com muita preocupação, porque a manifestação infelizmente está com um cunho despolitizante. O momento difícil que nós estamos vivendo em termos de representação política se deve justamente à falta de politização. E o discurso predominante e generalista, que todo político é picareta, isso não constrói. O que constrói é se aproximar da política, porque o pior castigo para quem não gosta de política é ser governado por quem gosta. É preciso ter um foco nessas manifestações e cobrar dos responsáveis as mudanças”.

[Um dia depois desta entrevista, no maior protesto da história de Natal, alguns participantes da manifestação quebraram as portas e tentaram invadir o Midway Mall, o shopping que é hoje a menina dos olhos do Grupo Guararapes. Para o empresário esse poderia ser um exemplo bem próximo de falta de foco.]

Para Flávio Rocha, a falta de interesse do brasileiro por política atrasa o crescimento do país de várias maneiras. “Cada vez que o voto se afasta da política, passa a prevalecer  aquela má política, que vive do curral eleitoral, do fisiologismo, do bolsa isso, bolsa aquilo. E isso é o que existe de pior na política”.

Mas trata logo de explicar que não é contra os programas sociais, apenas que acha que eles precisam melhorar a ação.

“Os ‘bolsas’ tiveram um grande papel, mas acho que precisa ter uma rota de fuga, não pode virar uma profissão. Num primeiro instante, para uma inclusão, para colocar no mercado de trabalho, é bom. Mas o que a gente vê é que esse dinheiro muitas vezes passa a ser até uma concorrência ao emprego formal, o que é ruim até pro cidadão que se acha beneficiário”.

A informalidade é desde sempre o Calcanhar de Aquiles da gigante Riachuelo. Mais da metade do comércio popular de roupas no Brasil está nas mãos dos vendedores informais. Esse número já foi maior e foi também o responsável pela grande crise da história da marca, no final dos anos 80, quando a empresa abriu concordata.

“Foi um momento muito difícil. A gente até chegou a se questionar se fazia sentido manter uma empresa, uma cadeia como essa, num mundo que era predominantemente clandestino e informal, num pais que já tinha uma das maiores cargas tributaria do mundo”.

O apego do patriarca e fundador do grupo, Nevaldo Rocha, falou mais alto e decidiram manter o negócio e procurar uma saída.

“Fizemos uma reestruturação enorme. Fechamos muitas lojas e mudamos o foco. Até  aquele momento a Riachuelo era focada em preço. Foi ali que a gente identificou que tinha um novo segmento surgindo. Ate então tinham 2 segmentos: os que tinha renda e informação e que consumiam  moda; e os que não tinham nem renda nem informação e que consumiam roupa. E ali estava  começando a surgir, pela democratização da informação, um terceiro segmento, ainda sem renda, mas já com informação e já disposto a pagar um pouquinho mais para ter a ultima tendência,  o último lançamento de moda”.

Foi quando a Riachuelo parou de competir por preço com o mercado informal e passou a se diferenciar pela informação de moda. O que para as massas era somente objeto de desejo, passou a ser objeto de consumo produzido a um preço mais baixo pela Riachuelo. E foi aí que começou o pionieirismo da grande varejista da moda potiguar em um tipo de ação que viria a ser replicado pelas cadeias mundiais de fast fashion alguns anos depois: as parcerias com estilistas famosos.

O que Flávio Rocha conta em tom de brincadeira tem lá sua parcela de verdade. As ações das gigantes Zara, H&M, Top Shop e tantas outras não foram copiadas da Riachuelo, claro. Mas o que aconteceu é que, apesar da liderança mundial e dos bilhões gastos em pesquisa de mercado, essas empresas só há poucos anos perceberam algo que Flávio Rocha já estava de olho há pelo menos três décadas: a democratização da informação de moda e a evolução da maneira de comprar das massas, que deixaram de ver a moda como apenas uma maneira de evitar a nudez e passaram a enxergá-la como forma de expressão e poder.

A primeira parceria da Riachuelo com um estilista famoso foi nos anos 80, com Ney Galvão. O designer baiano radicado em São Paulo apresentava um programa de TV com Marília Gabriela e era a bola da vez entre as consumidoras mais abastadas do sudeste. Fechou parceria com a Riachuelo e produziu uma série especial assinada por ele para a varejista. Fez sucesso, claro, e a Riahcuelo não abandonou mais a prática. Só no ano passado foram 9 parcerias com estilistas. O objetivo não é conquistar um novo público ou conseguir uma fatia dos consumidores endinheirados dessas marcas caras, mas sim atender ao próprio público da Riachuelo, que  agora lê sobre moda e deseja o que está nos blogs, nas novelas e nas vitrines do mundo.

Outro exemplo do estilo avant garde da Riachuelo foi a arriscada aposta que Flávio Rocha fez no início de sua carreira no grupo, patrocinando Ayrton Senna quando ele era somente um promissor piloto desconhecido. O filho de Nevaldo Rocha havia acabado de criar a Pool, marca de jeans da Riachuelo, e a primeira ação de marketing foi o apoio a Ayrton.

“A pool foi o inicio da minha vida profissional e um dos grandes propulsores do crescimento da marca foi uma irresponsabilidade que eu cometi aos meus vinte e poucos anos que talvez não cometesse agora. Eu peguei toda  a verba de propaganda e apostei num corredor que estava ainda despontando na carreira. Ayrton queria ir correr na Inglaterra e foi quando a gente se encontrou, conversou e eu resolvi patrociná-lo. E foi o maior investimento publicitário que a gente podia ter feito. Eram corridas semanais e todo domingo eram 3, 4 minutos direto de Fantástico na TV. Foi um grande sucesso e isso deu uma grande visibilidade à Pool” relembra.

 

Modelo de negócio

 

Flávio Rocha é sempre convidado a dar palestras e falar sobe o modelo de negócios da Riachuelo. A cadeia integrada do Grupo Guararapes inclui fábrica, transporte, logística, varejo e crédito. Nessa cadeia estão a Fábrica Guararapes, a Casa Verde transportadora, as lojas Riachuelo, o shopping Midway Mall e a Midway Financeira. É a única empresa brasileira a conseguir produzir esse modelo.

“Nos vamos do fio à ultima prestação do financiamento. Isso dá um ciclo financeiro de quase 400 dias. Acabamento do fio, confecção, logística, varejo e o braço financeiro com a Midway Financeira com seus 22 milhões de cartões de crédito ativos. É a maior carteira de cartões private label do Brasil. Esse modelo tem a sua lógica e a razão de existir. A sinergia da cadeia integrada é o que dá duas coisas essenciais à moda: baixo custo – nós somos lideres em preço é muito difícil para uma empresa só varejista acompanhar a nossa competitividade em custo; e em segundo lugar a velocidade que a tendência chega às lojas, que é muito importante”, explica.

A Riachuelo já chegou a operar com 90% de produção própria. Quase tudo de vestuário que era vendido nas lojas era produzido nas fábricas do Rio Grande do Norte e do Ceará – principalmente na fábrica de Natal, que tinha 3/4 da produção e 18 mil funcionários. Apenas cerca de 5% era importado.

A partir de 2010 esse quadro mudou e hoje a Riachuelo tem apenas 45% de produção própria. Pouco comparado ao passado da empresa, e ainda muito comparado às concorrentes, que terceirizam quase toda a produção.

“A produção própria caiu porque foi duramente atingida pela quebra de competitividade que é  o grande problema das empresas brasileiras hoje. É muito mais caro e difícil porduzir aqui. Está ficando inviável. A industria têxtil está perdendo competitividade e a china está dominando”

A maior parte do que é importado pela Riachuelo hoje vem da Ásia. Flávio Rocha viajou recentemente à China, onde foi conferir de perto as ações do escritório do Grupo Guararapes naquele país. Quando se terceiriza a produção, surge o problema da falta de controle  sobre os processos produtivos. Segundo o empresário, o objetivo do escritório chinês é fiscalizar as condições de trabalho das confecções que fornecem para a Riachuelo, evitando problemas semelhantes ao que ocorreu com a Zara, que vendia peças produzidas em condições análogas à escravidão. Sobre as condições de trabalho das confecções chinesas, o empresário garante que o que viu de perto é bem diferente do que está no imaginário popular:

… a empresa não pode crescer, tem um limite de número de funcionários e um teto de faturamento. Uma empresa nesse teto do super simples não consegue ter acesso às tecnologias mais elementares. Ela não consegue sequer comprar uma máquina de corte automático, porque a maquina já dá um faturamento maior que o teto do simples . Então ela tem que se preservar num estado de precariedade tecnológica e precariedade de trabalho.

A prática dessas empresas é recorrer à terceirização e quarteirização. Uma oficina corta outra monta, outras dão acabamento. Então você tem muitas vezes uma fábrica de confecção que se abastece de 30, 40 oficinas e essas ainda se abastecem de outras. Então vira uma rede inadiministrável. O nosso modelo não sofre desse problema porque temos produção própria e uma vigilância muito forte em cima do que não é de produção nossa” explica.

 

Expansão

 

A história da Riachuelo começa no final dos anos 30, quando Nevaldo Rocha, pai de Flávio Rocha, veio de Caraúbas para Natal. Nos anos 40 ele abriu sua primeira loja de roupas, chamada A Capital. Junto com o irmão ele implantou uma pequena confecção em recife, a Guararapes. Anos depois a fábrica mudou para Natal e foram construídas novas fábricas em Fortaleza e Mossoró. Até que em 1979 Nevaldo Rocha comprou a cadeia de lojas Riachuelo, que passou a fazer parte do Grupo Guararapes.

Hoje a Riachuelo está colocando em prática seu mais ousado plano de expansão. O grupo fechou 2012 com 170 lojas e quer chegar às 210 até o fim de 2013. São mais lojas do que já foram construídas em 66 anos de empresa.

A expansão é fruto da demanda, que tem proporcionado o bom momento do varejo no Brasil, principalmente do varejo de moda. Com o aumento do poder de compra, o brasileiro nunca consumiu tanta roupa como agora.

“O varejo é uma ilha de prosperidade no Brasil, é o que está puxando o crescimento.

No ano passado o varejo cresceu 8 vezes mais que o PIB. A projeção daqui pra frente é que esse quadro continue.É o setor que mais emprega e que mais anuncia”, se orgulha Flávio Rocha, que é também presidente do IDV – Instituto para o Desenvolvimento do Varejo.

O processo de expansão é acompanhado de perto pelo fundador do grupo, Nevaldo Rocha, que vive em Natal. A diretoria da Riachuelo viaja semanalmente à capital potiguar para se reunir com seu Nevaldo e ele viaja constantemente com o grupo para supervisionar de perto as novas lojas. Nenhuma decisão é tomada sem ele, pelo contrário, é o patriarca quem orienta a maioria dos negócios.

Quando o Grupo Guararapes iniciou as pesquisas para a construção do shopping Midway Mall, foram contratados três estudos de mercado. O mais otimista deles dizia que Natal comportava um novo shopping de 20 mil metros quadrados de área bruta de lojas. Seu Nevaldo ignorou completamente os estudos e disse que o shopping iria ocupar todo o terreno, e que seriam 70 mil metros quadrados de lojas.

“Perdi muitas noites de sono pensando que estávamos construindo um elefante branco. O que eu não contava era com a capacidade do mercado natalense e a geneorisdade do consumidor natalense que abraçou o shopping de uma maneira incrível”, relembra.

Ignorar as previsões sobre a capacidade do mercado consumidor natalense é o passatempo preferido da família Rocha. Novas estatísticas davam conta de que a cidade também não comportaria um teatro com as dimensões do Teatro Riachuelo. Mais uma vez as previsões foram deixadas de lado e o resultado foi um novo sucesso.

 

Cortando na própria carne

 

O Midway Mall acaba de passar também por uma expansão. A principal novidade é a chegada da Zara ao terceiro piso. A cadeira espanhola de fast fashion é uma das mais cultuadas no mundo da moda e durante muito tempo houve uma especulação de que o Natal Shopping iria trazer a Zara para Natal, mas o foi Grupo Guararapes quem acabou ganhando a corrida. E aí o mais difícil foi convencer seu Nevaldo a abrir mão de um bom pedaço da Riachuelo, para dar espaço aos dois mil  metros de área que a gigante espanhola exigia.

 

Bilionários

 

Com um negócio avaliado em cerca de R$ 7 bilhões, Flávio e Nevaldo Rocha são os únicos brasileiros do setor têxtil presentes na lista de bilionários da Forbes. Eles trilham o caminho de empresários como Amancio Ortega – da Zara e Stefan Persson – da H&M.

“Algum tempo atrás não se podia imaginar essa mudança de perfil da geração de riqueza. Uma mudança de ciclo. Essa lista um tempo atrás era privativa de grandes banqueiros ou de grandes industrias petroquímicas ou mineradoras. Era um outro perfil. Era tipicamente economia primária. Isso mudou drasticamente. Hoje a geração de valor, com a migração de poder para o consumidor, está em quem está mais próximo do consumidor. O varejo é que está crescendo e eu acredito que aqui no Brasil nós estamos começando a década do varejo. E mais especificamente o varejo de moda, justamente por causa dessa democratização da moda” comemora Flávio Rocha.

Mas o que assusta e tira o sono de um bilionário? Para o homem da Riachuelo, o pesadelo é o que ele chama de custo-Brasil.

“Eu vi agora mesmo um relatório da Zara, que opera em 65 países, que diz que o país mais difícil de se operar é o Brasil. Em seguida vem a Argentina. Pela complexidade tributária, pelo excesso normativo, pela burocracia… Isso é um dos grandes fatores de queda vertiginosa da competitividade no nosso país. Todos esses entraves, tudo isso é custo. É o custo-Brasil, que empurra o nosso desenvolvimento pra baixo. Muitas são as empresas que vem para o Brasil atraídas pelo seu potencial de mercado, mas muitas desistem. É um labirinto. Antes se fala muito em taxas de juros, no câmbio, na carga tributária, mas hoje acho que o grande obstáculo é o excesso regulatório, o labirinto jurídico, tributário e normativo que torna muito difícil competir no país”, desabafa.

No Rio Grande do Norte a situação para as empresas também não é das melhores, segundo Flávio Rocha. O empresário costuma se referir constantemente às “forças que trabalham contra o desenvolvimento” ou “a banda do contra”. Mas prefere não ser mais específico nem citar nomes “porque a represália vem, são pessoas rancorosas”. Mesmo assim, dá uma pista de onde está o entrave:

“São órgãos regulatórios, com a legislação cheia de subjetividade, regidos por gente que não entende nada do assunto. Coisas do tipo… Você compra uma maquina de milhões de euros, essa maquina é colocada aqui e os orgãos regulatórios exigem adaptações na máquina que chegam a custar mais da metade do preço dela. É uma coisa difícil de entender. Pessoas que nem sequer tem formação específica para fazer isso e impõem essas coisas absurdas”.

E completa:

“O que falta ao RN é uma liderança forte pró desenvolvimento, pró negócios, capaz de convocar essas forças que lutam contra pra um projeto global e abrangente de desenvolvimento. Não é impossível. Pernambuco consegue fazer isso muito bem, porque nós não?”, questiona.

 

Futuro

 

De celular e iPad sempre em mãos, Flávio Rocha é viciado em gadgets e sempre deixa um pouco dos seus bilhões nas lojas de tecnologia pelo mundo. Casado e pai de quatro filhos, a família inteira respira moda. Dois dos filhos já trabalham com ele na Riachuelo. Felipe Rocha, o mais velho, está à frente do departamento de moda jovem masculina da rede. A mulher é designer de joias e os dois costumam sempre viajar em busca do que é trend no mundo.

Apesar da preocupação com a competitividade das empresas, o empresário tem conseguido acumular mais horas de sono tranquilo do que noites insones. O posicionamento da Riachuelo no mercado está caminhando para uma expansão cada vez maior no gigante e ainda pouco explorado mercado brasileiro. As possibilidades em solo nacional são muitas e o empresário prefere descartar a possibilidade de vender fora do Brasil.

“O Brasil é um mercado ainda inexplorado. Pra você ter uma ideia o mercado brasileiro é um mercado de 10 bilhões de peças de roupa por ano. A Riachuelo, que é a maior empresa de moda do país, vai vender esse ano 140 milhões de peças de moda. Ou seja, é só 1,4 % de participação no mercado. Ainda tem muito pela frente. Quero chegar logo aos 10% de participação. Apesar de seu Nevaldo achar que já fomos longe demais, para mim estamos só começando”.

 

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Carrie Bradshaw da vida real – Minha matéria com Lalá Noleto na Glam*

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*Mês passado foi publicada na Revista Glam uma matéria que fiz com a blogueira Lalá Noleto quando ela esteve em Natal participando de um evento. Eu já “conhecia” Lalá de outra vez que ela veio a Natal para o casamento de uma amiga. Deixei um exemplar da revista Salto Agulha com ela e algumas comidinhas potiguares, como castanha de caju e bala de coco =). Ela foi super atenciosa, me ligou para falar da revista e mantivemos contato pelo twitter desde então. Daí ela veio para o lançamento de uma das coleções do estilista Wagner Kalieno e eu paroveitei para bater um papo com ela e escrever sobre toda essa história de blogs, blogueiras, moda e comunicação. O resultado – para quem ainda não viu na revista – foi esse aí embaixo 😉

Escrever, comprar sapatos e frequentar fashion shows.

Essa era, basicamente, a rotina de Carrie Bradshaw no seriado Sex and the City, e um estilo de vida que passou a ser o sonho de muitas mulheres. Quem não daria todos os tesouros (incluindo os guardados no closet) para  viver frequentando os melhores eventos de moda, escrever sobre eles e ainda ganhar dinheiro pra isso? Todo mundo, né? Até porque o closet seria rapidamente reabastecido com os presentes que você ganharia das marcas.

Antigamente, ser jornalista de moda era o posto que mais se aproximava do sonho “estilo Carrie Bradshaw de ser”. Hoje, o cargo de blogueira é o que carrega todas essas expectativas. Lalá Noleto é uma das blogueiras mais conhecidas do país. Por causa do blog, está sempre viajando para participar de lançamentos, desfiles e inaugurações. Ela esteve em Natal para o lançamento da coleção do estilista Wagner Kalieno. Tudo muito corrido, agenda apertada, outros eventos em outras cidades à espera da blogueira.

O roteiro varia pouco: chegada, “almocinho” num restaurante charmoso de cada cidade, presentes esperando no hotel, salão de beleza, cabelo, maquiagem, escolha do look do evento, aparição pública, conversa com as fãs, fotos, fotos, fotos e, ufa!,  aeroporto de novo. Tudo devidamente registrado no Instagram e os melhores momentos em post no blog depois.

Entre a escova e a maquiagem na cadeira do salão de Abiss, conversei com Lalá para entender como a menina que escrevia blogs por hobby na adolescência fez disso sua profissão, e como funciona a engrenagem dos blogs de moda hoje no país.

Do direito à moda

Marcela Noleto nasceu em Goiânia, é formada em direito e chegou a trabalhar  em um dos maiores escritórios de advocacia da cidade. Quando criança, sonhava em ser dona de uma loja de vestidos de noiva. Vem de uma família de médicos e o vestibular para medicina também foi uma opção. Acabou passando para direito e seguindo a carreira jurídica, mas em pouco tempo percebeu que não identificava com a profissão. Não se via trabalhando por muito mais tempo naquilo.

Desde adolescente gostava de ler e escrever blogs. Sempre foi comunicativa, e adorava moda. A história de Lalá começou a tomar outro rumo quando ela conheceu algumas pessoas que trabalhavam na revista Contigo!. Querendo mudar de profissão, fez uma proposta para escrever uma página sobre moda na revista, em formato de blog. O projeto foi aceito e, ainda morando em Goiânia, começou a escrever para a revista.

Depois de um tempo colaborando de longe, a Contigo! reformulou o site e Lalá ganhou espaço também na página da revista na internet. Foi o momento em que ela se mudou para São Paulo e passou a colaborar também com outras publicações, como a Playboy. No site da Contigo! Lalá assinava um blog que passou a fazer muito sucesso entre as leitoras. Assim nasceu o Blog da Lalá.

O blog Falava de moda, e, principalmente, decifrava os looks das famosas. Sempre que alguma atriz aparecia usando um vestido deslumbrante, era correr pro Blog da Lalá e ter a certeza de que ela iria descobrir de onde era a peça e informar às leitoras. “No fundo eu gosto mais de comunicação do que de moda”, costuma dizer Lalá.

Algum tempo depois o blog havia crescido tanto, que chegara a hora da blogueira caminhar sozinha. Hoje o Blog da Lalá faz parte também do F*Hits, um grupo que se define como “A primeira prime network de moda do Brasil”. Noves fora o estrangeirismo, é uma rede que faz a ponte entre as marcas de moda e os blogs. Os clientes da rede aparecem nos blogs das meninas em eventos e “looks do dia” e as leitoras que se encantarem pelas peças podem adquiri-las em apenas um clique, na F*Hits Shop.

Hoje quando não está blogando, Lalá está… Blogando! “Não desligo do blog. Nossa, eu acho que eu só faço isso mesmo: pensar e trabalhar para o meu blog”, conta a moça que diz não ter um hobby específico, e trabalhar todos os dias da semana – menos no domingo. Lalá conta que não imaginou nem planejou essa trajetória, e que não tinha o objetivo de ter o blog como sua profissão. “Eu sempre achei que ia viver de revista. Sou uma pessoa de pouco planejamento, as coisas vão acontecendo e eu vou acompanhando. Sempre gostei de escrever e queria viver disso, o que aconteceu com o blog não foi planejado”, explica.

Talvez esse tenha sido o grande pulo do gato das blogueiras que dominam o mercado hoje. Sem imaginar exatamente onde iam acertar, elas atiraram com mais desprendimento, cada uma à sua maneira. O mercado foi mudando e o hobby ganhou a possibilidade de ser negócio.

Atualmente surgem novos blogs todos os dias e a maioria deles tem o claro objetivo de ser como Lalá e suas companheiras do F* Hits. São blogs que já nascem com suntuosas festas de inauguração e Media Kit pronto. Geralmente não dá certo. O blog não “pega”, não tem naturalidade. Lalá acha que é aí que as novas blogueiras erram. “Acho muito difícil acontecer o que aconteceu comigo de novo com outra pessoa. Na situação atual ela vai ter que ralar muito ou ser uma pessoa já conhecida, porque o mercado já está estabelecido”, opina.

Então, no mar de possibilidades que é a internet, não haveria mais espaço para novos blogs de moda? “Espaço existe sim, mas para coisas diferentes. O grande erro é que tem muita gente começando querendo fazer exatamente igual ao que já existe”, completa.

Não é à toa que as meninas querem copiar as blogueiras. Os blogs estão cheios de anunciantes e a maioria das moças aparenta – pelo menos na internet – ter um padrão de vida muito mais alto que a população “normal” brasileira. Afinal, vestem marcas caras, viajam com frequência ao exterior e frequentam lugares luxuosos. Um tempo atrás a revista Veja publicou uma matéria com a blogueira Lalá Rudge, dizendo que ela chegava a faturar R$ 100.00 por mês com o blog. A notícia rendeu muito bafafá e a blogueira depois disse que a revista não foi fiel às suas declarações. As moças não falam em números de seus faturamentos, mas a imaginação das aspirantes a blogueiras vai longe e só cresce o número de meninas que querem ser ricas e famosas através de um blog de moda.

Vivendo exclusivamente do blog hoje, Lalá Noleto conta que nunca prospectou clientes e que nega parceria com marcas que ela acha que não têm o perfil de seu site. “Nunca fui atrás de cliente nenhum. Eles que sempre me procuraram. E se a marca não tem a ver comigo, eu não aceito. Já neguei muitas parcerias para ser fiel ao estilo do blog e para não soar fake”, conta.

Sobre a relação com as colegas de profissão, ela diz que, ao contrário do que se pensa, as blogueiras se dão muito bem e são companheiras. “Não existe isso de rivalidade, as meninas se dão muito bem. Começou todo mundo meio que ao mesmo tempo, então todo mundo tinhas mesmas dúvidas, passava pelas mesmas situações e a gente se ajudava”, explica. É ifícil para quem está de fora imaginar tamanha cordialidade num universo onde pulsam vaidade, ego e dinheiro, como é a mídia de moda hoje.

Chega ao fim a escova da blogueira e também é o fim da nossa conversa. Ela tem que correr. Vai posar para fotos e seguir para o aeroporto. Descansar quando chegar em casa? de jeito nenhum! Tem mais compromissos do blog esperando. Tudo muito rápido, acelerado. Assim como a moda e as transformações que os blogs promoveram na roda da comunicação.

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Leitura de domingo: Paulo Borges na Glam

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Uma das coisas mais sublimes que pode acontecer na vida de um jornalista é a gente entrevistar alguém que admira e descobrir que essa pessoa é realmente tudo aquilo que a gente imagina.

Foi o que aconteceu uns meses atrás quando entrevistei o Paulo Borges

Quem no mundo da moda não conhece e admira esse cara, não é? Mas o bacana é que, na entrevista, vi o quanto ele é inteligente e tem uma visão de moda sensacional, diferente de muita gente que vive a moda somente pela superficialidade.

Como ele mesmo disse, não está na moda só pela roupa. É um processo muito mais amplo.

E é assim que eu penso também, por isso adorei escrever essa matéria que saiu na última revista Glam. 

A Glam é distribuída gratuitamente e você pode pegar seu exemplar na banca do Tota, em Petropólis. E a matéria com o Paulo Borges você pode ler agora nesse domingo ensolarado 😀

SEU NOME É MODA*

Visitando Natal para divulgar um projeto que movimenta a moda e a criatividade em todo o país, Paulo Borges conversa com a Glam e mostra que é sim tudo aquilo que a gente imagina: talentoso, inteligente, articulado, visionário, genial… ops! Faltaram adjetivos! Ele é o rei da moda brasileira e conhecer sua história ajuda a descobrir o porquê.

 

Em algum momento da década de 80 o futuro da moda brasileira esteve seriamente ameaçado. Paulo Borges nasceu em São José do Rio Preto e chegou a São Paulo no início dos anos 80 para cursar faculdade de Computação e Comércio Exterior. Quase seguiu carreira nessa área, mas um belo dia um amigo precisou de ajuda num desfile de moda e lá foi ele salvar o rapaz. Pronto. A partir daí não parou mais de criar e produzir. Tivesse seguido o caminho da faculdade de computação, o São Paulo Fashion Week não teria sido criado e a moda brasileira não teria evoluído tanto nas duas últimas décadas.

Conversei com Paulo Borges quando ele esteve em Natal divulgando o Movimento Hotspot (ver box) e fiquei surpresa ao ouvir que ele começou a trabalhar com moda “muito por acaso”, como gosta de dizer. Confesso que esperava mais um discurso padrão, do tipo “sempre gostei de moda e sonhava com isso desde criança”. Mas o rei da moda brasileira começou mesmo ajudando a organizar o desfile da loja do amigo, quando nem sabia como se fazia um desfile. “Na verdade eu não sabia o que ia fazer. Fui pra lá pra ajudar  e o que apareceu fui fazendo. Acabou que gostei de fazer aquilo e as coisas foram acontecendo de uma maneira muito natural, até que alguém me indicou para trabalhar com produção de moda na Vogue”, relembra.

Na revista ele foi assistente de Regina Guerreiro. O ano era 1982 e Regina já era uma das mais importantes figuras da moda brasileira. “Quando eu fui trabalhar com a Regina eu não sabia quem era a Regina. Só depois eu descobri que ela era bem maior que a moda”.

Esse transcender a moda que Paulo aponta como característica de Regina Guerreiro também passou a ser uma característica dele. Logo o rapaz enxergou que havia caminhos bem mais ousados para se trilhar na moda brasileira. Percebeu que gostava mais de fazer desfiles e eventos do que trabalhar em revista, e partiu para a produção. Começou com o Phytoervas Fashion. O evento evoluiu para o Morumbi Fashion, e logo depois São Paulo Fashion Week.

De lá pra cá as principais transformações da indústria da moda no país foram alinhavadas por Paulo Borges. Hoje ele é dono da Luminosidade, empresa que funciona como uma plataforma de geração de conteúdo relacionado à moda.  A luminosidade cria e desenvolve diversos projetos – das semanas de moda a publicações como a revista ffw Mag!.

Paulo Borges sempre enxergou a moda como um sistema complexo, que vai muito além da roupa. Por isso ele passa longe do deslumbramento que cerca muita gente que trabalha no “mundo fashion”. É o articulista mais importante da indústria têxtil brasileira, e nas ultimas eleições presidenciais promoveu encontros onde entrevistou todos os candidatos para descobrir as propostas de cada um para o setor. Para ele, falta à moda brasileira um plano de desenvolvimento de longo prazo. Também falta educação e qualificação. O número de faculdades de moda que cresce a cada dia no país não significa mais profissionais competentes atuando no setor. Quantidade não é sinônimo de qualidade. “A educação no Brasil se tornou muito comercial, todo mundo busca números, as faculdades querem ter turmas numerosas, mas a qualidade do que está sendo ensinado em muitos lugares é questionável”, lamenta.

O resultado é que o Brasil está (de)formando profissionais que não entendem exatamente o processo da moda. A falta de informação gera ideias erradas e muito deslumbramento. É o mito de que trabalhar com moda é só glamour.  Essa falta de conhecimento gera desvalorização de profissionais importantes na cadeia de produção. “Todo mundo quer ser estilista. O jovem quer estudar moda, acha lindo, artístico, glamuroso, mas não sabe que tem que ter muita técnica e dedicação envolvida no processo. Profissionais como a costureira e a piloteira são desvalorizadas. A pessoa não entra na faculdade de moda querendo aprender a costurar, tem outra visão do que é fazer moda. Deslumbrada, estereotipada. E esse deslumbramento vem da falta de informação” explica Paulo Borges.

Apesar disso, ele é otimista em relação ao futuro da moda brasileira. E não há como não ser. O setor cresceu e se desenvolveu nos últimos anos, mesmo remando contra a maré. Apesar da falta de uma política nacional para o setor têxtil, o brasileiro consome moda como nunca, o que tem fortalecido o mercado.

Com tanta gente querendo comprando – e gostando de – moda, pode-se falar uma moda com identidade brasileira? Isso foi o que a indústria da moda perseguiu durante anos, mas, na opinião de Paulo Borges, esse processo foi atropelado pela globalização da informação. “Não existe mais moda de país em lugar nenhum do mundo. Existe moda de pessoas. É o olhar individual criativo de cada um. É um resultado da globalização. Não a globalização política, mas a globalização da informação. Se eu estou usando uma peça que chama atenção de alguém, a pergunta não é mais de que país ou de onde é, mas sim de quem é. E isso é fascinante”, opina.

Vivemos a era de uma moda global, onde as particularidades e as diferenças vem da vivência e da interpretação pessoal de cada criador.  E essa era tem a bênção do rei Paulo Borges.

 

Movimento Hotspot

“A gente não está na moda só pela roupa. É um processo muito mais amplo, que envolve fotografia, design, arte e muitas outras coisas”. Essa frase de Paulo Borges diz muito sobre seu mais novo projeto, o Movimento Hotspot.

Realizado através da Lei Rouanet, com patrocínio de empresas como Vale do Rio Doce e Riachuelo, o Movimento Hotspot é uma plataforma de divulgação de trabalhos relacionados à criatividade nas mais diversas áreas. O projeto recebe inscrições de pessoas de várias partes do país através do site. Os participantes exibem um vídeo e um texto explicando sua ideia, e as melhores serão premiadas. Os prêmios variam entre R$ 10.000 e R$ 200.000 dependendo da área de atuação.

Paulo Borges viajou o Brasil inteiro divulgando o Movimento Hotspot e tirando dúvidas dos participantes. A ideia é descobrir e premiar pessoas criativas em todo o país, descentralizando o processo que hoje ainda está concentrado nos grandes centros do país – São Paulo e Rio de Janeiro.

É a moda ajudando a descobrir a diversidade que existe ainda escondida em um país de dimensões continentais como o Brasil.

 

*Texto: Gladis Vivane / Fotos: Giovanna Hackradt

 

 

 

 

 

 

 

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Juraci Lira**

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Estou tendo a honra de trabalhar com Juraci Lira, e lembrei dessa entrevista que fiz com ela um tempão atrás.

Sobre o trabalho que estou fazendo, contarei mais em um outro post (é um figurino lindíssimo para a cantora Camila Masiso). Por enquanto, vale a pena lembrar a trajetória de Juraci – uma profissional talentosíssima, que além de tudo é muito ética e tem uma história de vida linda.

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** Esta entrevista foi feita há dois anos, para meu trabalho de conclusão de curso (TCC que foi o embrião da revista Salto Agulha).

Dom.

Não existe outra palavra que possa explicar de onde vem a inspiração da estilista Juraci Lira. De origem humilde, aos cinco anos de idade ela já usava lençóis e panos de prato da mãe, para confeccionar os primeiros modelitos. Ao longo da vida de Juraci, os obstáculos não foram poucos, mas ela nunca se deixou abater.

A estilista superou a infância difícil, a perda de dois filhos, um marido opressor e uma sociedade preconceituosa. Alheia às dificuldades, seguiu em frente e se tornou a mais requisitada modista do Estado. Os vestidos criados por ela podem fazer qualquer mulher sentir-se uma estrela de cinema. E como todas querem ter seus minutos de tapete vermelho, a loja e o ateliê de Juraci estão sempre lotados.

SA – Como você começou a se interessar por moda?
JL – Tudo que aconteceu comigo foi tão natural, tão espontâneo, que posso contar milhões de vezes a minha historia sem nunca cair em contradição. Eu sempre fui autodidata. Aos cinco anos, brincando ainda, eu tinha necessidade de fazer roupinhas para minhas bonecas o tempo todo. Pegava tudo que via de panos de prato e de lençóis da minha mãe para fazer roupas de bonecas. Apanhava muito por causa dessas travessuras, mas a vontade de criar sempre foi mais forte. Às vezes eu estava na roça com meu pai, e ficava brincando de fazer desfile. Não existia televisão, nem rádio, há mais de 40 anos no interior, mas eu imaginava aquilo tudo na minha cabeça.

SA – E quando você viu que aquilo poderia ser seu trabalho?
JL – Aos oito anos. Eu lembro que entre oito e dez anos eu já estava fazendo roupas para as pessoas que confiavam em mim. Eu me oferecia para fazer e perguntava “você pode me dar um tecido para eu fazer uma roupa pra você?”, aí as pessoas me davam pedaços de chita e eu fazia roupa para elas. Aos 13 anos eu já assumi as despesas da família com o dinheiro das costuras. Eu trabalhava e estudava, passava de ano no maior sufoco, porque ficava sem tempo nenhum pra estudar. Foi assim que eu consegui fazer o primeiro e o segundo grau. Nós morávamos em Serra de Santana e a minha mãe me mandou para a casa de uma tia em Florânia, para estudar.

Durante o dia, eu estudava e cuidava da casa deles e, à noite, eu costurava para minhas colegas. No colégio, o pessoal foi divulgando e alunos, professores, todo mundo comprava minhas roupas. Quando eu terminei o segundo grau ninguém falava em faculdade de moda, isso é uma coisa muito recente no Brasil. Mas, eu sempre me interessei pela historia da moda, ficava me perguntando como as pessoas se vestiam em outros lugares, outros países. Ficava perguntando para os meus professores de colégio, como era a moda na França, como era a moda antigamente…. Essas coisas… Isso numa aula que não tinha nada a ver. Eu não me interessava por matéria nenhuma, somente por aquilo que era ligado à moda.

juraci_002 SA – E depois de terminar os estudos você pôde se dedicar mais à moda?
JL – Não. Deveria ter sido assim, mas eu me casei aos 20 anos e fui morar no Pará. Meu marido não me deixava trabalhar de jeito nenhum, queria que fosse somente dona-de-casa. Então, eu tinha que costurar às escondidas, quando ele não estava em casa. Eu sempre fui repreendida para fazer o meu trabalho. Primeiro quando eu era jovem no interior, meus pais não queriam que eu costurasse porque eles não tinham dinheiro para comprar tecidos para mim. O pouco que eles tinham não permitia que eles comprassem material para eu trabalhar. Depois, veio o meu marido que me proibia de trabalhar.

SA – Quando foi que você conseguiu, enfim, trabalhar com o que você sempre sonhou?
JL – Quando eu decidi voltar para Natal. Nesse tempo que eu passei no Pará, eu fui mãe e perdi meus dois filhos. Quando minhas duas crianças morreram, eu fiquei sem perspectiva nenhuma. Além de toda a tristeza, eu não podia trabalhar, não podia fazer nada, ele continuava me repreendendo. Então, aos 30 anos eu decidi que ninguém ia mais me segurar, e tomei a decisão mais certa da minha vida. Peguei uma mala e duas máquinas de costura e voltei para Natal. Vim pra cá com o apoio das minhas irmãs que me acolheram, e eu disse “vou começar minha vida agora”.

SA – Como foi esse começo?
JL – Foi difícil porque aos 30 anos eu estava começando do zero, mas ao mesmo tempo, tudo se encaminhou de forma que cinco anos depois eu já tinha uma ótima clientela. Assim que cheguei aqui em Natal, trabalhava como assistente administrativa no Incra, e reunia todas as colegas de trabalhos e as amigas delas para mostrar as roupas que eu fazia. Meus chefes não gostavam disso e me perseguiam, então, eu reunia as mulheres no banheiro para poder mostrar meu trabalho.

Eu não era feliz nesse emprego porque o que me dava prazer mesmo era criar minhas roupas. Então, quando houve aquela disponibilidade no tempo do Governo Collor, pra mim foi, a melhor coisa que aconteceu, porque eu pude finalmente me dedicar ao meu trabalho. Aí, eu trabalhava feito louca. Ficava fazendo as roupas até de madrugada e acordava cedo para começar tudo de novo. Me entreguei de corpo e alma ao meu trabalho e foi a época em que todas as algemas foram quebradas, nada mais me prendia.

SA – Como foi a sua trajetória desde o momento em que você começou a se dedicar integralmente à moda, até os dias de hoje, com o nome que você conseguiu construir?
JL – Trabalhando dia e noite, eu consegui, em cinco anos, um espaço que talvez uma pessoa, em cinqüenta anos, não consiga. Tudo o que eu criava as pessoas adoravam e cada dia tinha mais gente me procurando. Foi quando eu abri uma loja no CCAB Dois anos depois, me mudei pro Shopping Cidade Jardim. Depois, eu já queria Petrópolis e consegui abrir a minha loja na rua Potengi.

SA – Como você define seu estilo? Você é famosa pelos vestidos de festas luxuosos, é essa mesmo sua especialidade?
JL – Antigamente, eu queria desenvolver só roupas de festa. Eu realmente gosto dessas criações mais glamourosas. Mas, eu senti uma necessidade do público que procurava também uma roupa mais esportiva, mais descontraída. Mas é claro que com um diferencial. Se a cliente quer um vestido de algodão, eu faço uma peça com uma modelagem sofisticada, um modelo com personalidade. Até nas roupas mais descontraídas que faço, imprimo um toque de glamour, o diferencial é esse. E hoje todas as peças que eu vendo na minha loja são criações minhas. Tem roupas para todas as ocasiões.

juraci_003 SA – Você sentiu algum tipo de preconceito no mundo da moda potiguar por ser de origem humilde?
JL – Senti sim. Tive que vencer algumas barreiras em relação a isso, mas superei porque nunca baixei a cabeça. Eu lutei muito para chegar onde estou hoje. Já chegaram a me perguntar a origem da minha família, porque para você ser alguém aqui em Natal teria que ter um sobrenome famoso. Eu expliquei a essa pessoa que tenho muito orgulho da origem humilde da minha família e mais orgulho ainda de ter conquistado tudo que tenho hoje, começando do zero.

SA – Parte desse preconceito também veio da mídia, pelo fato da “imprensa especializada” em moda aqui no Estado estar atrelada às colunas sociais?
JL – É. eu não gostaria que a mídia de moda aqui fosse assim. Eu queria que a moda andasse com suas próprias pernas. Queria que os profissionais daqui levassem muito a serio o trabalho dos criadores. Por que quem merece reconhecimento de verdade é quem cria, quem tem idéias, quem as executa. Um grande avanço para o nosso Estado seria a criação de mais cursos de moda. Já existem cursos que formam profissionais para a indústria, mas precisamos de cursos que preparem estilistas mais voltados para a arte. Uma coisa é você produzir em larga escala, outra coisa é fazer um trabalho direcionado e minucioso, e são esses profissionais que o RN precisa formar.

Ah, fico devendo um post com as fotos das coisas lindas que ela cria. Vou lá provar tudo e fotografar pra vocês, ok?

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