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Uma vida entre linhas, tesouras e agulhas

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Recebi email de uma leitora perguntando se eu conhecia algum alfaiate em Natal, onde ela pudesse mandar fazer um terno sob medida para presentear o marido. Imediatamente enviei para ela o contato de seu Ebenézer, alfaiate muito querido e talentoso, que entrevistei para uma matéria da revista Salto Agulha. Ele tem mais de meio século de profissão, e faz ternos perfeitos. Uns meses atrás encomendei um terno de linho branco para o meu namorado. Como queria fazer surpresa, levei um outro terno dele para o alfaiate tirar as medidas. Mesmo sem prova, o terno ficou perfeito! Caimento impecável. Indico muito o trabalho de Ebenézer. O ateliê dele fica no Alecrim e o telefone é (84) 3223-2696. Além do mais, ele é uma grande figura! Acho que vale a pena publicar a matéria aqui para quem não tem a revista.

Fotos: Drika Silveira

Alfaiates.

Sim, eles ainda existem!

No ano passado um vídeo circulava pelas caixas de email dos fashionistas, mostrando o processo de produção de ternos em uma fábrica na Turquia. As imagens eram a tradução fiel e literal do termo fast fashion. Os ternos eram confeccionados com a mesma velocidade em que batatas fritas saltam dos balcões de lanchonetes para as mesas dos clientes. Os funcionários da fábrica não eram costureiros, mas sim operadores de máquinas. E isso me fez pensar no trabalho dos alfaiates. Será que eles ainda existem? E se há sobreviventes, será que ainda há trabalho para eles?

Para responder a esses “aindas”, fui conhecer seu Ebenézer, alfaiate há sessenta anos, no bairro do Alecrim. A primeira boa surpresa é que não lhe falta trabalho. Durante mais de duas horas de entrevista, a campainha e o telefone não pararam. Clientes antigos vinham pegar suas encomendas, e os novos ligavam para marcar horário. Um deles é o comerciante Eduardo Mendes, que procurou o alfaiate depois que teve os ternos quase destruídos em uma famosa rede que oferece serviços de costura e consertos. “Tenho dificuldade de encontrar ternos nas lojas. O caimento nunca fica bom, e sempre preciso fazer ajustes. Levei meus ternos a esse lugar famoso para ajeitar, e fizeram um estrago grande. Minha irmã sugeriu então que eu procurasse um alfaiate. Nem sabia se ainda existia isso, mas haviam me dito que tinha um aqui no Alecrim. Vim como quem procura assim um animal em extinção! Ainda bem que consegui encontrá-lo”, comemora.

Seu Ebenézer recebe os clientes com muitas piadas, e vai logo oferecendo um cafezinho. O bom humor e o riso fácil são suas principais características. Quando pedimos que ele faça uma comparação entre o ritmo frenético de produção nas fábricas e o trabalho artesanal do alfaiate, ele se sai com essa: “Eu corto uma calça em 3 minutos, ninguém faz isso mais rápido que eu. Pode procurar em qualquer lugar do mundo! Falaram meu nome até no programa da Hebe, e teve um tempo que queriam me levar para um programa de TV pra mostrar isso” conta, referindo-se ao que deve ter sido o precursor do “se vira nos 30”.

História

Ele nasceu José Tácito Pereira Rocha. O nome Ebenézer – que em hebraico significa “até aqui nos ajudou o senhor”- foi adotado aos treze anos, quando conta ter “ouvido um chamado de Deus”. E se podemos considerar precoce receber um “chamado divino” aos treze, o que dizer de iniciar uma carreira na mesma idade? José Tácito, então aluno da Escola Industrial de Natal, virou Ebenézer na mesma época em que começou a costurar, ainda menino. O curso não chegou a concluir, pois precisava trabalhar. Ele tinha aquela maestria nata, e a certa altura já cortava e costurava melhor que os professores da escola.

Hoje, aos 73 anos, dá risada quando perguntado porque escolheu a alfaiataria. Diz que só conta se “a máquina não estiver gravando” (foi difícil convencê-lo que eram apenas fotografias, nada de filmagem), e com muita insistência, ele confessa: “Naquele tempo lá na Escola Industrial tinha curso de marcenaria, mecânica, arte em couro e alfaiataria. Eu tirei 10 em todas, menos em alfaiataria. Não gostava de jeito nenhum, porque naquela época dava muito boiola! Meu negócio era jogar futebol e não estudar. Como tinha pouca gente querendo ser alfaiate, o professor disse que me dava 20 pontos pra eu ficar em alfaiataria. Pensando em ganhar esses pontos tudinho sem estudar, eu aceitei!”, confessa. E segue “agora tem uma coisa, com seis meses eu já tava colocando o professor no bolso. Coisa de dom de Deus mesmo”.

Ao longo desses 60 anos de carreira, o alfaiate cultivou uma vasta e variada clientela. Já fez ternos para quase todos os políticos potiguares, e até Ulisses Guimarães já vestiu as criações de Ebenézer. Tem clientes que estão com ele desde que começou na profissão. “Tenho cliente já com 90 anos, quando eles não podem vir aqui, eu vou atendê-los em casa”, conta.

Com o trabalho no atelier, Ebenézer criou as duas filhas, e conquistou uma vida confortável. Hoje, por opção própria, vive de forma mais modesta. Ele conta que durante certo período foi um homem vaidoso, orgulhoso dos carros sempre novíssimos que possuía. Mas evita dar mais detalhes sobre essa época. O sigilo é quebrado pela chegada de um amigo que o conhece há décadas. O homem vai logo entregando “quando eu conheci Ebenézer ele andava num carro arrodeado de mulher!”. Nosso entrevistado sorri desconcertado e vai logo tratando de despachar o amigo dedo-duro. Em seguida conta que não gosta de falar sobre esse tempo em que “andou perdido”. E se emociona ao falar que, para ele, o que importa é que “Deus o chamou de volta”. Depois enxuga as lágrimas e abre um sorriso para mostrar o único hábito de vaidade que ainda cultiva. Tira um pente do bolso e passa vagarosamente pelos cabelos, perguntando: “E aí minha filha, ficou bom? Como se pra velho tivesse jeito né?”, e solta mais uma de suas gargalhadas.

Alzheimer

Seu Ebenézer não aparenta a idade que tem. Até o ano passado ainda jogava futebol, “e corria os noventa minutos, escreva aí!”, enfatiza. No momento está longe dos gramados por causa de uma cirurgia de próstata. Mantém a boa forma com uma alimentação sem excessos. “Como pouco, e não gosto de nada gorduroso. Minha mulher adora um queijo de manteiga. Eu não chego nem perto, atleta não come queijo!”, brinca.

Além disso, se mantém longe da televisão (esse sim deve ser um grande segredo de longevidade), diz não gostar da programação da TV aberta atualmente, e quando não está trabalhando, aproveita pra dormir. Nos fins de semana, ele chega a dormir 12 horas por noite, marcadas e contadas no relógio.

Por causa disso tudo, é impossível não se surpreender quando ele conta que tem Alzheimer. “Estou com a mesma doença da minha mãe”, sentencia. Mas seu Ebenézer descobriu uma maneira de driblar a situação. “O médico me disse – leve a vida sempre brincando que você vai enganando a doença. E assim eu faço. Quando eu venho no ônibus que vejo uma criança eu faço logo uma careta. Aí o menino diz: – Mãe aquele velho estirou a língua pra mim. Quando a mãe olha pra mim eu to com a maior cara de velho bonzinho. Depois a criança começa a rir, e isso eu já tiro meu dia todinho na brincadeira”.

Além do bom humor, o trabalho parece ser também uma arma poderosa na luta para manter suas próprias lembranças. Todos os pedidos e as fichas dos clientes, estão escritos em cadernos de capa escura e folhas pautadas, em um sistema que só ele entende. Sempre que esquece alguma coisa sobre um cliente, ele consulta o caderno.

Mais um cliente chega. Uma nova folha do caderno a ser preenchida, e hora de concluir a visita e deixar nosso alfaiate trabalhar em paz. Na despedida, a última piada “Se essa máquina conseguir viver depois dessa, já é uma sorte. Esse tempo todinho tirando retrato de velho, é um negócio sério, viu?”

Antes de ir faço uma ultima pergunta só para confirmar a resposta que já intuía: -O senhor pensa em parar de trabalhar e descansar durante um tempo? “Nunca minha filha! Só quando eu morrer ou minhas mãos endurecerem e eu não puder mais segurar a tesoura.”

É confortante saber que enquanto o mundo produz ternos em larga escala, através de um processo totalmente impessoal, ali no Alecrim teremos durante muito tempo ainda um senhor habilidoso, empunhando sua tesoura e fazendo ternos como antigamente.

(Lembrando que a Revista Salto Agulha pode ser lida aqui no blog, no item Revista do Menu. Ou, se preferir, você pode acessar a versão em PDF. Já quem aprecia o papel, pode pegar seu exemplar impresso nas Lojas Spicy ou Bain Douche do Midway Mall.)

Fotógrafos que amamos!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Comecei a fazer esse post ontem que era o dia mundial da fotografia, mas estou seriamente debilitada por causa de uma gripe nada fashion, e não consegui terminar de escrever.

No início pensei em listar grandes fotógrafos do mundo todo, que entraram para  a história da moda e da fotografia. Mas aí comecei a pensar em uma coisa mais próxima, gente talentosa que eu admiro aqui bem de pertinho!

Começando pelas minhas fotógrafas da revista Salto Agulha:

Drika Silveira – Esta com certeza não é a melhor foto dela, nem a que mais demonstra o talento da moça, mas é a minha preferida! Faz parte do ensaio em que transformamos uma modelo (Renata Matos) na minha musa Diana Vreeland. Para ver o ensaio incrível e uma matéria sobre Diana, é só pegar o seu exemplar da Salto Agulha em um dos pontos de distribuição da cidade!

Foto: Drika Silveira

Giovanna Hackradt- Gigi é uma danada! Além de ótima fotógrafa ela tem muita informação de moda e curte muito o tema, então está sempre cheia de ideias para editoriais incríveis, como esse:

Foto: Giovanna Hackradt

Giovanni Sérgio: Sou fã desde que comecei a gostar de fotografia. Aqui cabe a frase clichê  ”dispensa apresentações” porque realmente é um grande mestre, como vocês já devem saber. Lançou um livro chamado “As quatro margens do rio”, com imagens belíssimas, e que todo potiguar deveria ter na sala de casa. A foto abaixo eu peguei no twitter da Giovanna, que, olha só, é fillha dele. Talento hereditário, DNA etc e tal rs

Foto: Giovanni Sérgio

Renan Rêgo: Outra cria de Giovanni Sérgio, Renan mora e trabalha em SP. Não o conheço pessoalmente, mas vivo babando com as fotos dele no Flickr. Vejam lá!

Foto: Renan Rêgo

Humberto Lopes: Grande fotógrafo de moda, e pessoa muito do bem! Sabe aquela pessoa ótima de trabalhar? sem stress? É ele! Além de muito talentoso. Fizemos uma transformação inspirada em Amy Winehouse, e publico agora uma das minhas fotos preferidas do ensaio. Para ver o resto clica aqui.

Foto: Humberto Lopes

Canindé Soares: O homem que está em mil lugares ao mesmo tempo. Canindé tem um blog maravilhoso onde registra o dia a dia da cidade através de imagens. Impressionante como ele consegue fotografar tanta coisa, todos os dias. É um excelente profissional e super ético! Acabou de lançar um livro com imagens de Natal, e merece toda a nossa admiração!

Foto: Canindé Soares

Ney Douglas: Ideias diferentes, inusitadas e perigosas, é com ele mesmo! Fotojornalista dos bons, Ney tem um olhar super sensível para clicar imagens que nos despertam os mais variados tipos de sentimentos.

Foto: Ney Douglas

João Maria Alves:  Outro fotojornalista absolutamente incrível! João Maria coleciona histórias ótimas ao longo de muitos anos de carreira como fotógrafo da Tribuna do Norte. Lançou um livro que não vi ainda, mas estou super curiosa. Sou fã e admiro muito o trabalho dele.

Foto: João Maria Alves

E vocês, quais fotógrafos admiram?

Lançamento da Revista Salto Agulha

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Gente, a revista está tendo uma aceitação INCRÍVEL!

O lançamento foi lindo, e tá todo mundo amando. Tenho recebido todos os dias vários emails, ligações e twits sobre a linha editorial da revista. Todo mundo comentando as fotos, os assuntos abordados, a diagramação… Eu SABIA que Natal precisava de uma publicação que não fosse afetada nem careta. Sabia que tinha muito público pra isso sim!

Muito obrigado por todas as mensagens que vocês estão me mandando, seus lindos!!!!

E para quem ainda não sabe, a revista é distribuída gratuitamente. Os pontos de distribuição são o Nalva Melo Café Salão, na Ribeira (fone 3212 1655), e as lojas Bain Douche e Spicy, no Midway Mall.

Foto: Ney Douglas

Revista Salto Agulha – Uma nova maneira de ver a moda!

domingo, 11 de julho de 2010

Quem lê o blog com frequência e me acompanham no twitter (@gladisvivane) já deve saber que nos últimos meses estive ocupadíssima, trabalhando em um projeto bem especial. Agora finalmente posso dizer que ficou pronto, e o resultado está MUITO BOM!

A revista Salto Agulha é um sonho antigo, que me acompanha desde a faculdade de jornalismo (lá se vão muitos anos, hahaha). Nesse tempo todo, vi surgir em Natal várias revistas de moda, mas nenhuma trazia o que eu queria.

E quando a gente não gosta do que vê por aí, faz o que? Leva a vida em reclamar que  ”ai Natal não tem isso, ai Natal não tem aquilo”, ou corre pra fazer o que acha legal? Resolvi ficar com a segunda opção. E o resultado é uma revista de moda exatamente como eu gostaria de ler – por aqui, ou em qualquer lugar do mundo!

A revista foi feita com apoio da Diginet e da Faz Propaganda, via Lei de Incentivo à Cultura Djalma Maranhão. Será distribuída gratuitamente, e em breve vou anunciar aqui no blog os pontos de distribuição.

Enquanto isso, deixo vocês com a imagem da capa e o editorial:

Arte da capa por Amanda Duarte

Menos adjetivos, mais informação.

Sempre me incomodou a ideia distorcida que a maioria das pessoas tem quando se fala em jornalismo de moda – atire a primeira pedra aquele que não pensa logo em matérias vazias mostrando o closet de dondocas enfadonhas. E a cada conversa com um desconhecido, era mais um monólogo meu tentando explicar que isso é um grande equívoco.

A revista Salto Agulha é a junção de todos esses monólogos, mostrando que a moda está na arte, na história, no design, na literatura, na cultura…

Para a edição especial de estreia, investigamos o passado de Maria Boa – a prostituta refinada que entrou para a história de Natal; produzimos um editorial de maquiagem conceitual; contamos a história de um alfaiate que exerce a profissão há mais de meio século; esmiuçamos a vida da mulher que inventou a profissão de editora de moda nos anos 30; transformamos um astro da Jovem Guarda em um ícone do rock e ainda convidamos escritores para compartilhar suas memórias nas páginas da revista.

Isso tudo é moda!

E você aí torcendo o nariz e esperando ler mais uma besteira sobre “as cores da estação”, hein?

Aliás, é bom que eu informe também o que não esperar desta revista. Não espere afetação, excesso de adjetivos, o vazio da falta de informação, nem uma vitrine para exposição de egos.

Queremos também que esta seja uma publicação interativa e aberta a novidades. Para isso nossos twitters estão bem ao lado do nome de cada um da equipe. Esperamos receber críticas, sugestões, elogios, reclamações, xingamentos e declarações de amor, e assim vamos moldando a revista,  deixando-a afinada e afiada, bem ao gosto do público que começa a se formar agora.

Vire a página e aprecie sem moderação!