Mulheres possíveis em imagens na contramão*

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* Este artigo foi escrito pela minha professora Josimey Costa, e originalmente publicado na edição do último domingo do Novo Jornal. Como achei que a reflexão tinha muito (mas muito muito mesmo) a ver com o blog, pedi autorização para publicar aqui também. As fotos que ilustram o texto são de Angela Almeida.

“Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei”.  O trecho do poema “Vou-me Embora pra Pasárgada”, de Manoel Bandeira (1886-1968), passeia sobre o desejo de um homem de estar num outro lugar, onde escolhas são possíveis e abundantes. Às mulheres de Pasárgada como às do Brasil, resta serem os objetos da escolha. Não só das escolhas feitas pelos homens, mas pelas outras mulheres, pela mídia, em detrimento de si mesmas. Mas como fazer de si própria a melhor escolha? A julgar pelas imagens que servem de modelo ideal para as personagens reais desta história, é necessário antes ser jovem do que ser mulher feita, é mais essencial ser magra do que ser saudável e, importância acima das importâncias, é preciso ser pura… imagem.

Homens e mulheres contemporâneos têm, mais do quem em qualquer época da história, uma alta difusão do padrão ideal para suas formas corporais, estilos de apresentação visual e comportamentos. A indústria da moda, ajudada pela divilgação em massa de imagens de modelos em desfile, ídolos da música, artistas de cinema e apresentadores de TV, estabelecem as proporções áureas de agora e as burcas que cobrem os corpos ocidentais: a forma corporal correta, a idade conveniente e as roupas adequadas, sem nenhuma das quais se pode sair à rua impunemente.

Aqui, na terra de asfalto e concreto, no tempo das ondas eletromagnéticas e dos megabytes, a cama ainda é escolhida por outro, mas não é qualquer cama: como no mito grego de Procusto, é uma cama com medidas inadequadas, que não abriga todos, mas onde todas são obrigadas a se deitar. Se não couberem, terão partes do corpo cortadas por estarem sobrando. Ou esticadas, se forem insuficientes. Claro que o corte é feito a bisturi em ambiente asséptico, e os aumentos têm enxerto de silicone.  E está feita a imagem perfeita. Ou não?

Meninas da periferia

A conhecida atriz e apresentadora de TV Regina Casé, entrevistada no programa GNT Fashion do dia 20/02/2012 (Sky), fala sobre o estilo das meninas da periferia: “As néms são as meninas da favela que se arrumam muito, totalmente desligadas de imitar alguém. (…) Amo a autoestima (delas). Ninguém precisa ser magrinha, ninguém precisa ser alta. Você vê uma menina com o mesmo shortinho daquela magrinha, você vê a gordinha com a mesma roupa”, diz a apresentadora do programa “Brasil Legal”, grande sucesso na Rede Globo na década de 90. Lilian Pace, apresentadora do GNT Fashion, pergunta: “Ninguém tem complexo de Gisele Bündchen lá, né?”. Regina responde: “Não mesmo. Ali não dá pra ter. Sabe o que acontece? As pessoas que vão ali sabem que a felicidade está no real. A felicidade está no presente. Não dá pra projetar no futuro. Se você projeta lá no futuro ou lá no passado, ou numa coisa que você não tem grana nem condição de ter, sua vida vai ficar uma droga. Você vai ficar infeliz. Então, você tem que escolher: ou ser perfeita, ou ser feliz”.

O programa remete a imagens de mulheres vestindo roupas curtas, justas, coloridas, brilhantes, cheias de estampas, recortes, aplicações e bordados. Não há proibições, a não ser para o sem-graça; são permitidas gordurinhas, redondezas, sobras e carnes que pulam de decotes, de cavas e de coses de shorts curtos e calças muito apertadas, blusas colantes sempre de tamanho míni. Os ventres rotundos sugerem concepção e abundância. E também transgressão.

Diana Corso, psicanalista e articulista da revista Vida Simples (Editora Abril), em texto publicado na edição de março, afirma que talvez a gorda seja hoje “um novo tipo de mulher proibida, dona de um tipo de luxúria oral”. A gorda representa o pecado capital da gula, pois quem come a mais é um transgressor e não tem volumes nos lugares certos conforme ditam os padrões estéticos midiáticos. A norma geral é a de que só o que está dentro das regras é que pode ser visto pelo público. Pois as gordas praticam a olhos vistos a desmesura e, se os seus excessos saem às ruas, demarcam os sacrifícios feitos pelos que comem pouco em público, os que suam nas academias para não engordar.  A transgressão dos novos tempos, segundo a articulista, é ter uma gorda na cama. Que para ser assim, ludibriou Procusto!

O que é normal? O que é bonito?

A psicologia se debruça sobre os condicionamentos sociais e culturais para entender o comportamento dos indivíduos. A obediência a regras não explícitas, mas, nem por isso, menos opressoras, cria um padrão de normalidade irreal e irrealizável que interfere no psiquismo de cada um. Pierre Weil, psicólogo francês atuando no Brasil e criador da UNIPAZ (união da Universidade Holística Internacional com a Fundação Cidade da Paz), difunde um termo que define as consequências de uma normalidade impossível: normose, que designa o comportamento visto como normal e que, na verdade, é flagrantemente anormal. A normalidade também é matéria de discussão de James Hillman, psicólogo norte-americano criador da psicologia arquetípica pós-junguiana. Hillman diz que os sintomas que mais agridem o indivíduo provêm da alma do mundo, que está doente. Para ele, a normalidade é rígida, estanque e artificial. O diferente, dinâmico, desconforme é o estado natural e corriqueiro das coisas e dos seres.

O que seria, então, o normal para nós, no Brasil, em Natal? Os anúncios publicitários em toda parte dizem que a norma a ser seguida é a de que os corpos de todos devem ser jovens, magros, lisos, rijos, depilados, uniformes.  Na Ceasa – Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Norte, que fica em Lagoa Nova, em Natal – estão as mulheres das fotos expostas aqui. Nas ruas, no trabalho, nos lares, estamos nós. Como somos? Se quisermos obedecer ao padrão imposto, o custo é alto. Mas pode até ser financeiramente barato, tal a banalização de procedimentos estéticos, invasivos ou não. O site social Facebook serve de exemplo com seus anúncios de patrocinadores: não está satisfeita com seu rosto? Aplique botox com 70% de desconto. A pele tem manchas? Uma atriz dá as dicas de como perder 20 anos com a ajuda de uma dermatologista. Quer emagrecer sem suar? Tem um novo produto incrível, praticamente milagroso, que você só vai precisar ingerir e esperar. Mas não muito, que a vida é curta, a alegria é breve e os resultados, duvidosos.

Voltemos às mulheres da Ceasa. São trabalhadoras, mães de família, esposas, namoradas. Seu emblema são as bonecas de pano, de feira, ou bruxas, brinquedos ancestrais das meninas nordestinas. Há quarenta anos, muitas meninas brincavam com elas. Hoje, são raras. O mundo atual parece ser das barbies, produzidas industrialmente, originárias dos Estados Unidos, onde as mulheres descendentes de anglo-saxões são brancas, loiras, altas e mais longilíneas. Na realidade potiguar, ainda se encontram as bonecas artesanais, feitas a mão, cada uma diferente da outra, mesmo quando parecem iguais; as barbies coexistem com elas. E se as chamadas bruxas parecem feias hoje, talvez seja preciso olhar as misses de plástico com um pouco mais de atenção. Talvez não sejam realmente tão bonitas assim; na verdade, suas proporções são francamente bizarras. Se parecem naturais ou desejáveis, talvez seja porque estamos cada vez mais confundindo perfeição com padronização.  Sua suposta beleza pode muito bem estar em nossos olhos, acostumados a ver o igual como melhor que o diferente, visto com suspeita por ser sempre tão capaz de nos surpreender.

Sobre as autoras:

Josimey Costa é doutora em Ciências Sociais/Antropologia, e professora de Comunicação Social na UFRN. Também é docente e pesquisadora das pós-graduações de Estudos da Mídia e Ciências Sociais. Tem livros, artigos e ensaios publicados por diversas editoras. É também videomaker, poeta e contista. A reflexão do presente artigo é resultado de pesquisas que tem desenvolvido nas áreas de Teoria da Imagem, Semiótica da Cultura e Complexidade. As imagens do corpo na mídia tem sido um tema de investigação da pesquisadora desde 2000. 

Angela Almeida é Jornalista, doutora em Ciências Sociais ( UFRN), artista plástica, escritora e fotógrafa. Desenvolve pesquisa na área de estética, comunicação e fotografia.
Essas fotos são parte de uma pesquisa fotográfica sobre a estética brasileira com mulheres que trabalham em feiras, mercados e cantinas.Estou falando de uma estética brasileira que se mostra  no excesso, nas cores, na diversidade; na esfera que é embrenhada do híbrido, do carnavalesco, do senso comum, do popular, do festivo, alegre, etc.
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Defeito perfeito

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Pelo sucesso do post de ontem (e pelas respostas que tenho recebido na pesquisa do blog) vocês gostam de temas que mostrem a moda como um tema passível de muita reflexão e debate, né? 😀

Pois aproveito o momento pensante para publicar um textinho que vi no blog Le Croissant, e achei tão delicado e ao mesmo tempo tão forte.

O “defeito perfeito” do título do post não é meu. Foi transcrito do Le Croissant, assim como o texto a seguir.

Sylvie Vartan

“O nariz mais feio que eu já vi na vida estava jantando no Marais sexta passada, estrategicamente colocado bem no meio do rosto de uma mulher linda, moderna e aparentemente bem feliz. Como também parecia bem feliz o cara que gargalhava junto com ela e segurava apaixonadamente sua mão.

Olhando o nariz feio, pensei no defeito mais tipicamente francês que existe: os dentes levemente separados e projetados pra frente, chamados por aqui de dentes da alegria pela lembrança de uma longa infância de dedinhos chupadossem censura. Na dose certa fica um charme de matar, principalmente considerando o biquinho da pronúncia que normalmente acompanha. Ao primeiro que falar credo recomendo googlar Julie Delpy, Vanessa Paradis e Ingrid Chauvin.

No Brasil, como se sabe, a classe média alta não sofre de defeitos charmosos. Aos dez anos colocamos aparelhos nos dentes, aos doze operamos narizes estranhos orelhas de abano, aos quinze entramos na academia e começamos um regime sério, aos dezessete fazemos escova progressiva a cada dois meses – e aos vinte, enfim, somos todas idênticas”.


PS.: O Le Croissant é o blog da jornalista Carol Nogueira, que é brasileira e está morando na França (ou estava, faz tempo que ela não atualiza o blog =/). Ela tem um texto delicioso, que faz com que a gente “perca” horas e horas lendo tudinho do blog, até chegar à postagem inicial. Cheguei lá recomendada por duas amigas queridas (oi Luana e Guia!) e viciei. 

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O estilo de Dora Dalila

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Faz um tempão que eu queria fazer esse post, mas acabei esquecendo. Daí vi o rascunho salvo aqui e achei que ainda merecia ser compartilhado. Então vamos lá…

Dia desses, através de um link que postaram no twitter, conheci o diário virtual dessa moça chamada Dora Dalila.

Ela mora na Finlândia, tem 21 anos e é filha de mãe finlandesa e pai árabe-tunisiano.

Em seu Tumblr, o arab arab arab, Dora mostra coisas do seu cotidiano: culinária, passeios, estudo, viagens… Tudo já esperado da rotina de uma jovem da idade dela.

Mas a página acabou ganhando uma repercussão enorme por causa do jeito de se vestir de Dora.

Ela segue a religião do pai, o islamismo, e por isso segue normas bem restritivas em relação ao visual: só pode deixar rosto, pés e mãos à mostra, e tem que usar sempre um véu cobrindo a cabeça – o hijab.

O interessante é que, mesmo com toda essa limitação, Dora consegue se vestir de uma maneira super leve e bonita.

Ela é extreamente criativa e usa as sobreposições e os acessórios para driblar a mesmice de ter que usar sempre o mesmo estilo de roupa.

Se o termo “it girl” não estivesse desgastado ao ponto de ser quase ofensivo, poderíamos dizer que Dora é uma verdadeira it (argh quase nã consigo digitar isso!) girl.

Notem que ela usa acessórios lindos, sem precisar seguir a cartilha enfadonha dos blogs de moda. Ela não precisa de “it bags” nem daqueles óculos Willy Wonka da Prada que todas as meninas resolveram usar.

Dora acaba conseguindo colocar em prática uma coisa que muita gente passa anos tentando e não consegue: mostrar sua personalidade através das roupas.

Não quero com esse post fomentar qualquer discussão sobre religião A ou B e seus dogmas.

Só queria mesmo deixar registrada minha admiração pelo estilo dessa moça.

E pensar que nós, que não temos nenhuma dessas regras restritivas de vestimenta, caímos muita vezes na armadilha da preguiça e levamos a vida com um visualzinho bem sem graça, que não diz nada sobre nós.

Vamos exercitar mais a criatividade da próxima vez que abrirmos o guarda-roupas? 😀

 

 

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