Grife do cangaço*

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*Matéria feita por mim para a revista digital Living For. Gente, eu amei muito escrever esse texto! Sempre admirei o trabalho do Mestre Espedito e foi delicioso escrever sobre ele. Quem ama a estética do sertão e todo o significado que ela carrega também vai curtir 😉

 

Se o hábito faz o monge, é Seu Espedito Seleiro quem ajuda a fazer o cangaceiro. Essa história começa na cidade de Nova Olinda, Cariri Cearense, quando Espedito Veloso de Carvalho era ainda um menino de oito anos. O pai dele – assim como o avô e  o bisavô – era vaqueiro e seleiro. De dia estava embrenhado no meio da caatinga correndo atrás do gado. À noite acedia a lamparina no alpendre e virava artesão. Fazia selas, chapéus, peitorais, perneiras e gibões de couro. Toda a indumentária do vaqueiro, uma espécie de armadura de couro. Na época era comum que o próprio vaqueiro confeccionasse suas vestes. Ou ao menos tentasse uma vez. Se levasse jeito, acumulava os dois ofícios. “Casa de pai escola de filho”, é o ditado que Seu Espedito Seleiro sempre usa para justificar a escolha da profissão que exerce até hoje, aos 74 anos, e que lhe rendeu o sobrenome. “Eu segui os passos do meu pai, do meu avô e de toda a família deles. Mas só segui com o couro mesmo. Ser vaqueiro não levo jeito, não. Tentei uma vez, pra nunca mais! Era só pra cair mesmo”, lembra emendando com uma gargalhada. O talento que ele não herdou para ser vaqueiro, veio em dobro para ser artesão. Desde cedo ajudava o pai e era “astucioso”, como se diz lá pelo sertão.

Durante muito tempo o pai de Espedito fez as peças em couro que vestiam os cangaceiros da época. Tudo começou quando um belo dia ele recebeu uma encomenda diferente: “Um rapaz passou lá em casa e pediu pro meu pai fazer um modelo de ‘alpercata’. Disse o jeitinho que ele queria, de couro, com o solado quadrado. Ele perguntou: o senhor faz? Meu pai disse: faço”, conta. Ao receber a encomenda, antes de pagar, o rapaz fez uma revelação: A sandália não era pra ele, era uma encomenda do ex-coronel da guarda nacional Virgulino Ferreira da Silva, o famoso – e temido – Lampião. “Meu pai teve foi medo, mas vendeu a sandália. Fez o trabalho, né?”

A partir daí Lampião virou cliente assíduo. É importante dizer que o traje era parte importantíssima da vida do cangaceiro. Primeiro porque oferecia a proteção necessária para viver no ambiente pouco confortável da caatinga. Depois, porque oferecia alguma possibilidade de camuflagem. As sandálias com o solado quadrado serviam para despistar a polícia. Quando os soldados examinavam as pegadas, era impossível descobrir para qual direção os cangaceiros haviam ido. Mas há também outra questão que torna a indumentária tão importante para aqueles homens e mulheres. No livro Estrela de Couro – A Estética do Cangaço [2010] o pesquisador Frederico Pernambucano de Melo cita o que ele chama de “blindagem mística”, que  seria uma espécie de proteção (não só física, mas também espiritual) que os cangaceiros creditavam a cada peça e detalhe de seu ornamentado figurino. Desenhos, arabescos em couro, patuás, penduricalhos, cada um tinha uma função, além do vestir e adornar. Somado a tudo isso ainda existia a vaidade natural dos bandos. No mesmo livro, há uma passagem onde o autor diz que “o bando de Lampião, sobretudo nos anos 1930, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”. O próprio Lampião gostava de bordar à máquina e o fazia como forma de premiar os seus discípulos preferidos. Quando um cangaceiro do bando ganhava a confiança do Coronel, era comum que recebesse alguma peça bordada de presente, confeccionada por Lampião.

A indumentária do cangaço era tão marcante que há relatos de que até a polícia se deixou seduzir pelo street style da caatinga e passou a vestir de forma semelhante. Situação que fez um comandante emitir comunicado oficial proibindo os soldados de usarem qualquer coisa que não fizesse parte do uniforme em vigor, tais como “cartucheiras cowboy, chapéus exagerados à Lampião, enfeites amarelos nas bandoleiras e alpercatas de todo enfeitadas”, como consta em documentos oficiais da época.

 

Depois dos cangaceiros, sapatos pras madames

Em meados de 1938, na cidade de Angicos, interior de Sergipe, foi dado cabo de Lampião. A morte ao lado de Maria Bonita, sua companheira de jornada, e mais nove cangaceiros era o desfecho da determinação do então presidente Getúlio Vargas de eliminar qualquer foco de deserdem do território nacional, que desafiasse as autoridades policiais e o sistema politico centralizador do seu regime. E Lampião, dos três subgrupos de cangaceiros que vagavam em busca de justiça, emprego e cidadania, fazia parte do que era considerado mais perigoso: o dos dependentes, com características de banditismo.

Com o fim da luta revolucionária, a clientela voltou a ser composta apenas por vaqueiros. E foi essa freguesia que Seu Espedito herdou do pai. As selas e as roupas encouradas que ele confeccionava em Nova Olinda e levava para vender nas feiras da região faziam muito sucesso. Conversando com o artesão dá para entender de onde vem a preferência dos vaqueiros por suas peças. “O vaqueiro gosta de ‘tá’ o tempo todo vestido de vaqueiro. Aí a roupa tem que ser boa pra ele ficar bem o tempo todinho. Se você faz uma roupa feia, sem jeito, os outros vaqueiros ficam falando do cabra”, explica, e, sem perceber, aclara o diferencial de sua confecção: ergonomia e modelagem.

Mas o tempo foi passando, o gado sumindo e os vaqueiros também. De uns anos pra cá o vaqueiro trocou o cavalo pela moto e o chapéu de couro pelo boné – sempre com alguma propaganda de político. Não há mais o trabalho de entrar na caatinga atrás de uma reis desgarrada. As poucas cabeças de gado que ainda se criam no Cariri estão dentro dos currais. É uma profissão em vias de extinção.

Seu Espedito chegou a achar que o artesanato em couro também iria acabar. E nutria com tristeza uma vontade de mostrar seu trabalho pro mundo, antes que as novas gerações desconhecessem totalmente o artesanato sertanejo. “Eu pensava comigo, meu Deus, será que ninguém vai dar fé d’eu? Eu sei fazer esse trabalho tão bonito, que aprendi com meu pai, que aprendeu com o pai dele, e por aí vai. E será que eu nunca vou mostrar isso pro mundo?”, confidencia o artesão. E eis que um dia alguém encomenda uma sandália igual àquelas que o pai de Seu Espedito fazia para Lampião. O boca a boca pela região espalhou e de vez quando alguém aparecia querendo uma sandália “estilo Virgulino”. Mas ainda não era o reconhecimento que Seu Espedito merecia.

 

Ingresso no calendário da moda

Aos poucos ele foi ganhando fama pelo interior do Nordeste como “o sapateiro de Lampião”. Até aí sem grande repercussão além das fronteiras do Cariri. Até que recebe um encomenda importante: a Cavalera queria usar as sandálias de Seu Espedito no desfile da São Paulo Fashion Week, no verão 2005/2006. Uma mexida no design, uma cor aqui, outra ali, o estilo foi mantido, mas com uma pitada de modernidade. E as sandálias do “sapateiro de Lampião” foram parar na passarela mais importante para a moda do país. O resto da história não é difícil imaginar: as criações de Seu Espedito caíram no gosto da gente da moda e ficaram conhecidas no Brasil inteiro e até no exterior.

Gganhou as telas do cinema um ano mais tarde. Na sétima arte, Espedito calçou e vestiu o ator Marcos Palmeira, protagonista da película “O homem que dasafiou o Diabo” – uma adaptação do romance “As pelejas de Ojuara”, do escritor Nei Leandro de Castro. Além do vestuário, incluiu móveis na produção. Só não mexia com a madeira, mas o revestimento em couro era todo cortado, costurado e pintado por ele com anilina.

Hoje ele produz bolsas, sandálias, botas, sapatos, cintos, malas, bijouterias e tantas outras peças em couro. Até alguns móveis entram na produção. Tudo com aquela carinha de sertão, mas com o toque da criatividade de Seu Espedito, que parece não se esgotar. Cada peça é única e diferente da outra. E o repertório dele não acaba. O ateliê dele em Nova Olinda já é ponto turísitco da cidade. Foi ele também quem vestiu Marcos Palmeira para o papel de Ojuara, na adaptação para o cinema do livro de Nei Leandro de Castro.

Seu Espedito passeia entre a tradição e a modernidade com maestria. O design das peças que ele cria é incrível justamente por aliar tão bem o design do cangaço com os anseios estéticos de quem consome moda contemporânea. Essa é a força e o encantamento da obra dele.

Imagem da matéria publicada na Living For

PS.: Todas as fotos foram feitas na exposição sobre Espedito Seleiro que esteve em cartaz no Museu do Objeto Brasileiro, em São Paulo, até semana passada.

PS2.: Vale a pena baixar a revista no seu tablet para conferir a matéria completa. O trabalho gráfico ficou bem bonito casadinho com o texto. Tem os links de todas as edições da revista aqui.

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A moda e a estética do sertão*

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Quando vi pela primeira vez a emblemática fotografia das cabeças decepadas do bando de Lampião, muitos detalhes me passaram despercebidos. Foi preciso outros encontros com a imagem e olhares mais atentos, para que o detalhe mais interessante fosse revelado: as duas máquinas de costura nos cantos superiores da fotografia. Uma imagem carregada de simbolismo, que diz muito sobre a realidade da época.

uma das fotografias mais famosas da história do país, e as maquinas de costura lá…

No sertão da primeira metade do século 20 a máquina de costura tinha a importância que a televisão tem nos lares de hoje. O modelo Singer que aparece na foto, era o sonho de consumo das donas de casa. O sertão fechado, terreno inóspito, de chão rachado e tapetes de macambira, era o que os cangaceiros tinham para chamar de lar. E era onde se costurava, bordava e adornava.

A Singer vestia o cangaceiro para o combate, a criança para o batismo e a noiva para o altar. Cobria a viúva com o luto e as moças com o colorido da chita. Marcava períodos, fazendo bermudas  – que se chamavam calças curtas – para os meninos, e calças compridas para os homens. Coisas de um tempo em que ostentar o luxo de comprar roupas prontas, trazidas de fora, era coisa para pouquíssimos.

A estética do sertão é a estética da resistência. Da roupa usada até a fibra do algodão virar farelo. Do couro forjado em vestes para aguentar o peso da lida. Do vaqueiro com ares de cavaleiro medieval – não para se proteger de lanças de guerra, mas dos afiados espinhos da caatinga. Do aproveitar tudo até a última gota.

Muito ligado à natureza, o sertanejo carregava em sua indumentária as cores “puras”. O vermelho do sangue – para eles, o “encarnado” – lhes dava força. O branco das nuvens, a pureza. O azul, cor do manto de Nossa Senhora, também era a cor da água. E o homem do sertão tinha uma relação de verdadeira adoração com a água, sempre tão escassa, o que fazia com que o azul fosse a cor do acalanto, da serenidade. O amarelo, do ouro e da riqueza. Por vezes, todas as cores juntas, em combinações que a moda – aquela das passarelas – demorou a descobrir, mas que hoje não cansa de revisitar.

A herança estética que o sertão nos deixou é vasta. Rendas, bordados, estampas, materiais, texturas, artesanatos. Algumas dessas heranças mostram que a moda feita à mão tinha uma função social além da simples confecção das peças. O trabalho manual era momento de reflexão, era o divã das sertanejas. Quantas mães traçaram o destino dos filhos enquanto bordavam sentadas numa cadeira de balanço junto à janela? O olhar ora acompanhava a linha, ora se perdia no horizonte, mostrando que os dedos, de tão acostumados, já conseguiam seguir sozinhos, sem a supervisão dos olhos.

Imagem: daqui

Outras vezes, o divã era coletivo. Uma espécie de terapia de grupo onde as mulheres expurgavam os problemas familiares, dividiam experiências e falavam da vida de outrem – mais ou menos como fazem nas academias de ginástica de hoje. A “terapia de grupo” foi responsável por batizar um tipo de trabalho manual muito característico do sertão: o fuxico.  Creio que não há quem não conheça, mas não custa explicar: são pequenas peças feitas de retalho, que se unem para formar blusas, colchas, toalhas, ou o que  mais a criatividade permitir. A hora de costurar, era também a hora da fofoca. Ou do fuxico, como preferem os nordestinos. E assim ficou batizado.

O homem do sertão também era vaidoso. Comprar roupa nova para as festas de fim de ano e para o São João, era sagrado. Encontramos traços fortíssimos da vaidade masculina onde menos esperamos: entre os cangaceiros. Frederico Pernambucano de Mello diz em seu livro Estrela de couro, a estética do cangaço [2010], que “o bando de Lampião, sobretudo nos anos 30, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”.

O próprio Lampião, vaidosíssimo, não abria mão do seu perfume predileto, o Fleurs D’Amour, da maison Roger & Gallet. A fragrância foi criada em 1904. Saiu de linha há anos, mas até hoje é possível encontrar raros frascos do Fleurs D’Amour à venda em sites como Ebay – a preço bem salgado, diga-se, por ser um perfume vintage.

O perfume preferido de Lampião, o Fleurs D’amour, em anúncio da época

Lampião também era um costureiro talentoso e dominava como ninguém a técnica do bordado à máquina. Há relatos de ex companheiros de cangaço, de que ele desenhava os modelos antes de levá-los à máquina, para garantir a perfeição (é certamente uma imagem cheia de dualidade, esta – a do cangaceiro estilista). Já alguns autores afirmam que trabalhos manuais delicados, como costura e bordado, tinham a função de higiene mental no cangaço.

A indumentária dos cangaceiros era imponente e chamava atenção de longe. À primeira vista, a falta de discrição no vestir seria uma contradição para um grupo que vivia quase sempre às escondidas, em fuga, perseguido pela polícia. Mas o traje do cangaceiro não era somente funcional: cada elemento da vestimenta tinha um papel importante de proteção – não só física, mas também espiritual. A “blindagem mística”, citada por Pernambucano de Mello.

Lampião sentando à máquina

Lembro de um episódio que meu bisavô adorava contar, sobre seu suposto encontro com Lampião, no sertão de Pernambuco. Vovô era rapazote e, no tal dia, dirigia por uma estrada de terra, conduzindo um carro carregado de bananas. Quando o veículo atolou, do meio do mato surgiu um grupo de homens, “com umas roupas que pareciam de vaqueiro, só que muito mais enfeitadas, cheias de moedas, coisas coloridas e coisas que faziam barulho”. Perguntaram o que o rapaz fazia, pra onde ia por aquelas estradas, e “se não tinha medo de encontrar Lampião”. Ao que meu avô, num ímpeto de coragem juvenil, respondeu: “Tenho medo não, que Lampião não é bicho”. O grupo deu uma gargalhada e ajudou o rapaz a desatolar o carro. Na despedida, apertaram as mãos e o chefe do bando disse: “Você sabe com quem está falando”? Diante da resposta negativa, ele concluiu: “Hoje você conheceu Virgulino Ferreira, o Lampião. E só deixamos você passar porque é um rapaz de coragem”.

Meu avô contava que depois disso “tremia feito vara verde” e demorou cerca de uma hora pra conseguir se acalmar, ligar o carro e ir embora.

Se a história é verdade, ou se ele contava apenas para deleite dos bisnetos, não sei. Mas sempre que ouvia isso, ficava imaginando as roupas daqueles homens.

O fascínio que a indumentária dos cangaceiros exercia sobre a minha imaginação de criança, não era diferente da admiração que causava ao povo da época. Há relatos de que até a polícia se deixou seduzir pelo visual do cangaço, e passou a se vestir de forma semelhante aos cangaceiros. Situação que fez um comandante emitir comunicado oficial proibindo os soldados de usarem qualquer coisa que não fizesse parte do uniforme em vigor, tais como “cartucheiras cow boy, chapéus exagerados à Lampião, enfeites amarelos nas bandoleiras, alpercatas de todo enfeitadas…”.

Mas, e hoje? Será que o sertão ainda guarda algum traço de pureza estética? 

“O sertão é um mundo que se foi” – afirmou certa vez Oswaldo Lamartine, em entrevista ao repórter Sérgio Vilar. Terá ido com ele, também, a identidade visual construída ao longo de tantos anos pelo povo sertanejo?

Para a escritora Clotilde Tavares, a televisão foi um forte agente transformador da estética do sertão. Com a TV vieram também as facilidades de acesso aos centros urbanos, às feiras do interior, à produção em larga escala. Hoje não há mais vantagem em costurar roupas em casa quando se pode ir à feira mais próxima e comprar peças a bom preço – e, o melhor, no mesmo estilo das celebridades televisivas.

Se algum resquício do estilo sertanejo de ontem ainda resiste, pensa Clotilde, ele se revela na paixão pelas cores. “Não conheço sertanejo que não adore uma cor forte, um colorido vivo, alegre. Hoje não vejo mais uma pureza estética no que se refere ao modo de vestir do sertanejo, mas o gosto pela cor permanece.”

De outra parte, o caminho inverso também acontece, e o sertão invade o resto do mundo através da TV. Uma das novelas de maior sucesso dos últimos tempos no país, Cordel Encantado – a “novela das seis” –, traz para as telas um sertão do início do século 20. A história se passa entre dois mundos imaginários – o reino de Seráfia, na Europa, e a cidade de Brogodó, no sertão brasileiro. O figurino é riquíssimo em detalhes, e, junto com a fotografia, é apontado como um dos principais elementos que contribuem para o sucesso do folhetim.

o romântico vestido de crochê da personagem Açucena. Comentado e desejado de norte a sul do país

Conversei com Karla Monteiro, que junto com  Marie Salles assina o figurino da novela. Ela contou que em meio ao extenso trabalho de pesquisa para montar o figurino dos personagens, surgiu o verbo “brogodar”, que se refere a bordar, tingir, trabalhar à mão as peças do núcleo da cidade de Brogodó. Tudo para dar vida a uma estética do sertão de ontem. Além disso, vários núcleos trabalham em conjunto para que elementos como rendas, bordados, couro e metal, estejam presentes no figurino. Ela resumiu parte do processo:

“Depois de ler a sinopse e de uma primeira conversa com nossos diretores Ricardo Waddington e Amora Mautner, onde a encomenda foi um mundo imaginário – afinal, os reinos de Serafia e a cidade de Brogodó não existem, a não ser no nosso texto –, começamos a pesquisa. Em um primeiro momento sobre a(s) época(s) da novela, final do século 19, quando a nossa história começa, e início do século 20. Depois fomos assistir filmes, pesquisar em alta costura, em livros de fotografia e álbuns de família. E  deixamos as necessidades de cada personagem ‘comandar’ nosso pensamento. Montamos vários ateliês. O de chapéu, comandado pelo Denis Linhares, chapeleiro carioca. O de envelhecimento e tingimento, e de marchetaria, com o Alex, artesão pernambucano, onde foi feito todo o trabalho de metal nas roupas dos cangaceiros. Dizemos que é um figurino de época com uma ‘pegada contemporânea’. Um olhar diferente da época porque cabe na nossa fábula brincar dessa forma. Quanto aos cangaceiros, a pesquisa foi feita em cima da indumentária dos vaqueiros, dos samurais, e sobre  Lampião e seu bando. Os gibões foram comprados em Fortaleza e adereçados no  nosso ateliê de marchetaria.” 

A moda brasileira há muito flerta com o sertão. Ora de maneira mais tímida, ora através de uma paixão mais declarada. O primeiro cupido desse affair foi provavelmente a mineira Zuzu Angel. Antes de entrar para a história por ter usado a moda para denunciar os horrores da ditadura, Zuzu já fazia história ao misturar artesanato nordestino com alta costura. O primeiro passo foi tingir algumas rendas – que eram utilizadas somente em panos de cozinha – na mesma cor dos tecidos nobres, e usar os dois materiais juntos em vestidos de festa. Depois ela fez peças com chita, bordados, labirinto, renda de bilro e até vestidos de noiva feitos com toalhas de mesa nordestinas.

o vestido noiva feito de toalha de mesa de Zuzu Angel

Outro aparecimento marcante do sertão na moda brasileira aconteceu em 2006, com a coleção “O sertão ri”, do também mineiro – e não acaso admirador do legado de Zuzu Angel – Ronaldo Fraga. A coleção foi toda inspirada na obra de Guimarães Rosa, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Na apresentação do trabalho, o estilista afirmava: “O sertão é um só, e por não ter portas e janelas ele está em todo lugar.”

O sertão podia não ter portas, mas a moda brasileira tinha voltado a fechar algumas. Quarenta anos após Zuzu Angel, a desvalorização do artesanato nordestino havia voltado a ser uma pesada porta à espera de novamente ser derrubada. A renda de bilro era bonita para levar pra casa como lembrança das férias ensolaradas, mas para as passarelas – e para as vitrines mais refinadas – não servia.

O desfile de Ronaldo Fraga trouxe as cores e as texturas do sertão de volta aos holofotes. Nos anos seguintes, as próprias transformações sociais, que obviamente ecoam na moda, ajudaram a agregar valor e prestígio à estética nordestina. Começou-se a falar em economia criativa, sustentabilidade, e o artesanato ficou chique – passou a ser chamado handmade. Fazer o quê se a moda precisa de um estrangeirismo besta para agregar valor ao que antes não enxergava como tesouro?

modelos da coleção ‘O sertão ri’, de Ronaldo Fraga. Imagem: Oficina de Estilo

Assim, o sertão ganhou passe livre na alta costura brasileira. Entre uma coleção e outra, sempre aparece alguém tomando aquele pedaço de chão como inspiração. Mas o grande destaque dos tempos atuais, o sertão deve ao poder das novelas, como as maiores catalisadoras de tendências de moda do Brasil.

 “Para mim o artesanato nacional sempre esteve na moda, mas é uma surpresa que uma novela de época tenha essa força. O nosso intuito ao conceber e realizar o figurino foi a busca pelas características de cada personagem para ajudar a contar essa fábula deliciosa de fazer e de ver”, pondera a figurinista de Cordel Encantado.

Também têm um quê de fábula algumas coleções de estilistas potiguares inspiradas no sertão. Não por fugirem à realidade, mas por retratarem um sertão de lembranças.

A estilista Eveline Santos, da Avohai, fez uma coleção inspirada na natureza de Jardim do Seridó. As peças são cheias de detalhes que estimulam a memória afetiva de quem cresceu no sertão.

Em Currais Novos encontramos a Ana Marcolina, marca de Luciana Mamede, sempre bebendo na fonte  inesgotável de inspiração que é a região do Seridó.

Já o estilista Riccard8 San Martini, acaba de lançar uma coleção intitulada “Asa Branca”, que tem inspirações que transcendem a localização geográfica, mas que usa materiais tipicamente nordestinos – e já faz sucesso com um bracelete de couro que vestiria tão bem um cangaceiro quanto um gladiador.

croqui da coleção ‘Asa Branca’, de Riccard8 San Martini

Enquanto isso, em Nísia Floresta, a poucos quilômetros de Natal, um homem sonha com um Museu do Vaqueiro. Guardião da estética sertaneja, o empresário, músico e pecuarista Marcos Lopes é um purista quando se fala em tradição nordestina. Ele mantém um espaço onde funciona o tradicional Forró da Lua. O evento acontece uma vez por mês, promovendo um típico forró pé-de-serra, iluminado, é claro, pela lua cheia.

Marcos Lopes tomou pra si a missão de manter vivas as tradições do lugar onde cresceu. Com recursos do Banco do Nordeste (BNB), ele conseguiu viabilizar um projeto que oferece oficinas de sanfona e de artesanato em couro para crianças de Nísia Floresta. O mestre Júnior Souza vem de Cabaceiras,na Paraíba, ensinar a secular arte de trabalhar o couro, principalmente o couro de bode – o mais versátil e maleável. Durante as aulas são produzidos pequenos objetos como chaveiros, sandálias e chapéus em miniatura. A ideia é que com mão de obra especializada, o artesanato em couro possa vir a ser uma atividade econômica para a região.

O mestre explica que, em Cabaceiras, o couro é responsável por boa parte do dinheiro que circula na cidade. “Eu trabalho em uma fábrica de chapéus que fornece para o Nordeste inteiro. O couro é uma atividade econômica forte lá na minha cidade. Tem tradição, né, tem fama, aí todo mundo procura. Não falta trabalho pra quem quer e sabe trabalhar o couro. Já aqui a gente não vê esse tipo de trabalho”, compara.

Enquanto as crianças aprendem os mistérios do couro, é possível observar em cada canto da fazenda um pedacinho de história do Nordeste. Várias partes da indumentária do vaqueiro espalham-se pelo espaço. É o acervo do futuro Museu do Vaqueiro, que, enquanto não tem espaço próprio, fica exposto ali mesmo. Muita coisa está na família de Lopes há anos. Outras tantas são doações de gente que conhece o trabalho dele. Há um projeto aprovado na Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo para a construção do Museu, mas os recursos ainda não foram captados. Enquanto isso, Marcos vai catalogando as peças, e contagiando o máximo de pessoas que encontra pelo caminho com sua paixão pelo Nordeste. É assim, com um impressionante entusiasmo ao falar do museu, que ele consegue parcerias para colocar os planos em prática.

Fico imaginando como será quando o museu estiver pronto. Durante a curta, mas intensa “viagem” que fiz, olhando as selas, chapéus e gibões, penso que entrar nesse museu será como atravessar uma porteira de fazenda. Daquelas fazendas que quase todo Nordestino tem na lembrança. Mesmo quem nasceu no litoral e visitava o sertão somente nas férias, como eu. Mesmo quem não tinha essas férias, mas que, ao menos uma vez na vida, foi recebido em uma casa sertaneja.

E aí pensei na força da estética do sertão. Porque sempre que se fala em uma imagem que represente o Nordeste, a primeira visão que nos vem é a do sertão e não do litoral. É admirável o poder de um ambiente cinzento e pobre, que consegue se sobressair à outro leve e próspero.

É a bela vitória da meia-lua com estrela sobre a vela da jangada.

*texto originalmente publicado na revista Preá #24. Para ler outros artigos da revista, consulte a versão on line aqui.


 

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