Mary Jane

Juraci Lira**

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Estou tendo a honra de trabalhar com Juraci Lira, e lembrei dessa entrevista que fiz com ela um tempão atrás.

Sobre o trabalho que estou fazendo, contarei mais em um outro post (é um figurino lindíssimo para a cantora Camila Masiso). Por enquanto, vale a pena lembrar a trajetória de Juraci – uma profissional talentosíssima, que além de tudo é muito ética e tem uma história de vida linda.

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** Esta entrevista foi feita há dois anos, para meu trabalho de conclusão de curso (TCC que foi o embrião da revista Salto Agulha).

Dom.

Não existe outra palavra que possa explicar de onde vem a inspiração da estilista Juraci Lira. De origem humilde, aos cinco anos de idade ela já usava lençóis e panos de prato da mãe, para confeccionar os primeiros modelitos. Ao longo da vida de Juraci, os obstáculos não foram poucos, mas ela nunca se deixou abater.

A estilista superou a infância difícil, a perda de dois filhos, um marido opressor e uma sociedade preconceituosa. Alheia às dificuldades, seguiu em frente e se tornou a mais requisitada modista do Estado. Os vestidos criados por ela podem fazer qualquer mulher sentir-se uma estrela de cinema. E como todas querem ter seus minutos de tapete vermelho, a loja e o ateliê de Juraci estão sempre lotados.

SA – Como você começou a se interessar por moda?
JL – Tudo que aconteceu comigo foi tão natural, tão espontâneo, que posso contar milhões de vezes a minha historia sem nunca cair em contradição. Eu sempre fui autodidata. Aos cinco anos, brincando ainda, eu tinha necessidade de fazer roupinhas para minhas bonecas o tempo todo. Pegava tudo que via de panos de prato e de lençóis da minha mãe para fazer roupas de bonecas. Apanhava muito por causa dessas travessuras, mas a vontade de criar sempre foi mais forte. Às vezes eu estava na roça com meu pai, e ficava brincando de fazer desfile. Não existia televisão, nem rádio, há mais de 40 anos no interior, mas eu imaginava aquilo tudo na minha cabeça.

SA – E quando você viu que aquilo poderia ser seu trabalho?
JL – Aos oito anos. Eu lembro que entre oito e dez anos eu já estava fazendo roupas para as pessoas que confiavam em mim. Eu me oferecia para fazer e perguntava “você pode me dar um tecido para eu fazer uma roupa pra você?”, aí as pessoas me davam pedaços de chita e eu fazia roupa para elas. Aos 13 anos eu já assumi as despesas da família com o dinheiro das costuras. Eu trabalhava e estudava, passava de ano no maior sufoco, porque ficava sem tempo nenhum pra estudar. Foi assim que eu consegui fazer o primeiro e o segundo grau. Nós morávamos em Serra de Santana e a minha mãe me mandou para a casa de uma tia em Florânia, para estudar.

Durante o dia, eu estudava e cuidava da casa deles e, à noite, eu costurava para minhas colegas. No colégio, o pessoal foi divulgando e alunos, professores, todo mundo comprava minhas roupas. Quando eu terminei o segundo grau ninguém falava em faculdade de moda, isso é uma coisa muito recente no Brasil. Mas, eu sempre me interessei pela historia da moda, ficava me perguntando como as pessoas se vestiam em outros lugares, outros países. Ficava perguntando para os meus professores de colégio, como era a moda na França, como era a moda antigamente…. Essas coisas… Isso numa aula que não tinha nada a ver. Eu não me interessava por matéria nenhuma, somente por aquilo que era ligado à moda.

juraci_002SA – E depois de terminar os estudos você pôde se dedicar mais à moda?
JL – Não. Deveria ter sido assim, mas eu me casei aos 20 anos e fui morar no Pará. Meu marido não me deixava trabalhar de jeito nenhum, queria que fosse somente dona-de-casa. Então, eu tinha que costurar às escondidas, quando ele não estava em casa. Eu sempre fui repreendida para fazer o meu trabalho. Primeiro quando eu era jovem no interior, meus pais não queriam que eu costurasse porque eles não tinham dinheiro para comprar tecidos para mim. O pouco que eles tinham não permitia que eles comprassem material para eu trabalhar. Depois, veio o meu marido que me proibia de trabalhar.

SA – Quando foi que você conseguiu, enfim, trabalhar com o que você sempre sonhou?
JL – Quando eu decidi voltar para Natal. Nesse tempo que eu passei no Pará, eu fui mãe e perdi meus dois filhos. Quando minhas duas crianças morreram, eu fiquei sem perspectiva nenhuma. Além de toda a tristeza, eu não podia trabalhar, não podia fazer nada, ele continuava me repreendendo. Então, aos 30 anos eu decidi que ninguém ia mais me segurar, e tomei a decisão mais certa da minha vida. Peguei uma mala e duas máquinas de costura e voltei para Natal. Vim pra cá com o apoio das minhas irmãs que me acolheram, e eu disse “vou começar minha vida agora”.

SA – Como foi esse começo?
JL – Foi difícil porque aos 30 anos eu estava começando do zero, mas ao mesmo tempo, tudo se encaminhou de forma que cinco anos depois eu já tinha uma ótima clientela. Assim que cheguei aqui em Natal, trabalhava como assistente administrativa no Incra, e reunia todas as colegas de trabalhos e as amigas delas para mostrar as roupas que eu fazia. Meus chefes não gostavam disso e me perseguiam, então, eu reunia as mulheres no banheiro para poder mostrar meu trabalho.

Eu não era feliz nesse emprego porque o que me dava prazer mesmo era criar minhas roupas. Então, quando houve aquela disponibilidade no tempo do Governo Collor, pra mim foi, a melhor coisa que aconteceu, porque eu pude finalmente me dedicar ao meu trabalho. Aí, eu trabalhava feito louca. Ficava fazendo as roupas até de madrugada e acordava cedo para começar tudo de novo. Me entreguei de corpo e alma ao meu trabalho e foi a época em que todas as algemas foram quebradas, nada mais me prendia.

SA – Como foi a sua trajetória desde o momento em que você começou a se dedicar integralmente à moda, até os dias de hoje, com o nome que você conseguiu construir?
JL – Trabalhando dia e noite, eu consegui, em cinco anos, um espaço que talvez uma pessoa, em cinqüenta anos, não consiga. Tudo o que eu criava as pessoas adoravam e cada dia tinha mais gente me procurando. Foi quando eu abri uma loja no CCAB Dois anos depois, me mudei pro Shopping Cidade Jardim. Depois, eu já queria Petrópolis e consegui abrir a minha loja na rua Potengi.

SA – Como você define seu estilo? Você é famosa pelos vestidos de festas luxuosos, é essa mesmo sua especialidade?
JL – Antigamente, eu queria desenvolver só roupas de festa. Eu realmente gosto dessas criações mais glamourosas. Mas, eu senti uma necessidade do público que procurava também uma roupa mais esportiva, mais descontraída. Mas é claro que com um diferencial. Se a cliente quer um vestido de algodão, eu faço uma peça com uma modelagem sofisticada, um modelo com personalidade. Até nas roupas mais descontraídas que faço, imprimo um toque de glamour, o diferencial é esse. E hoje todas as peças que eu vendo na minha loja são criações minhas. Tem roupas para todas as ocasiões.

juraci_003SA – Você sentiu algum tipo de preconceito no mundo da moda potiguar por ser de origem humilde?
JL – Senti sim. Tive que vencer algumas barreiras em relação a isso, mas superei porque nunca baixei a cabeça. Eu lutei muito para chegar onde estou hoje. Já chegaram a me perguntar a origem da minha família, porque para você ser alguém aqui em Natal teria que ter um sobrenome famoso. Eu expliquei a essa pessoa que tenho muito orgulho da origem humilde da minha família e mais orgulho ainda de ter conquistado tudo que tenho hoje, começando do zero.

SA – Parte desse preconceito também veio da mídia, pelo fato da “imprensa especializada” em moda aqui no Estado estar atrelada às colunas sociais?
JL – É. eu não gostaria que a mídia de moda aqui fosse assim. Eu queria que a moda andasse com suas próprias pernas. Queria que os profissionais daqui levassem muito a serio o trabalho dos criadores. Por que quem merece reconhecimento de verdade é quem cria, quem tem idéias, quem as executa. Um grande avanço para o nosso Estado seria a criação de mais cursos de moda. Já existem cursos que formam profissionais para a indústria, mas precisamos de cursos que preparem estilistas mais voltados para a arte. Uma coisa é você produzir em larga escala, outra coisa é fazer um trabalho direcionado e minucioso, e são esses profissionais que o RN precisa formar.

Ah, fico devendo um post com as fotos das coisas lindas que ela cria. Vou lá provar tudo e fotografar pra vocês, ok?

Exposição mostra relíquias do closet de Greta Garbo

sexta-feira, 26 de março de 2010

Uma das atrizes mais lindas da história do cinema, Greta Garbo foi também uma das mais reservadas. O estilo low profile fora das telas, aliado ao sucesso de clássicos como Mata Hari e A Dama das Camélias, sempre gerou muita curiosidade a respeito de sua vida pessoal. Agora, 20 anos após sua morte, os fãs podem conhecer uma parte bem íntima da atriz sueca: O closet.

Durante uma visita ao Museo SalvatoreFerragamo, em Florença, o sobrinho neto de Greta comentou com a curadora, Stefania Ricci, que a família havia guardado um acervo riquíssimo de roupas e sapatos da atriz. Daí surgiu a ideia da exposição “Greta Garbo: Il Mistero Dello Stile” que inclui figurinos de filmes famosos, peças pessoais, echarpes, casacos, filmes, fotografias e muitos (muitos mesmo) sapatos Ferragamo.

Aliás, a história de Greta Garbo com Salvatore Ferragamo é ótima. Um dia eles se econtraram em Florença e ela lhe disse  “Não tenho sapatos. E quero andar.” Ferragamo criou então um par de saltos baixos e fechados que ela gostou tanto que pediu 70 pares, a maioria variando apenas a cor. Beeeeem shoes addict, né?

Então quem estiver por Milão até o dia 04 de abril, ou em Florença depois disso, TEM QUE visitar essa exposição que é também pura história da moda e do cinema. “Greta Garbo: Il Mistero Dello Stile” fica no La Triennale di Milano até o dia 04 de abril. Depois segue para o Museo Salvatore Ferragamo, onde fica até setembro.

Sem falar que o museu Ferragamo é um dos melhores lugares de se visitar em Florença. É tipo a Meca das apaixonadas por sapatos!  Você entra lá e pensa “nossa, morri e fui pro céu dos calçados”!

Who’s that girl?

quarta-feira, 1 de julho de 2009
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Criadora e criatura

 

Maquiagem é, sobretudo, uma arte.

Não filha, não é porque você passou batom e puxou um traço preto disforme na pálpebra que vai ficar achando que é um Gauguin.

Mas quando se domina a técnica, é possível fazer verdadeiras transformações. Transfigurações. Usando luz e sombra, parece magia. Os olhos crescem, ou semicerram. Se afastam, se unem, mais próximos a um nariz que, dependendo do tom usado, pode ser mais fino.  Grande. Pontudo. Delicado. De bruxa? De princesa?

Formato do rosto. Têmporas, maçãs, queixo, boca, sobrancelhas. Tudo base moldável nas mãos de um bom artista.

Assim que surgiu a idéia da revista, aproveitando o talento de Nalva Melo – que faz bruxaria com pincéis- quis fazer a cada edição uma “transformação”.

Pra não ser nada óbvio, resolvi convidar pessoas que não lembrem em nada o personagem que vão receber.

Quando fizemos as fotos, no início do ano passado, Amy Winehouse ainda não era no Brasil, o ícone pop que é hoje. Era ainda uma promessa. Mas já tinha a performance hipnótica, o vozeirão, o estilo que ela mesma criou, o marido na cadeia, o envolvimento com drogas, a relação conturbada com a mídia, uma polêmica por dia e um jeito próprio de dizer “foda-se” pra tudo. Enfim, a anti-heroína perfeita.

E quem a gente queria pra assumir esse papel? Alguém que fosse exatamente o oposto de Amy.

Larissa Borges é uma moça muy fina. Gentil, delicada, distribui sorrisos, “por favor” e “obrigada” a quem lhe cruza o caminho. Tem um estilo clássico. Sempre impecável. Educada, não fala palavrão, e durante as fotos ainda descubro que nunca fez aquele gesto clássico com o dedo que Amy adora fazer para os paparazzi.  É uma princesa. Que não vive num castelo, mas administra um palácio.

Quando fiz o convite, ela aceitou de primeira. Mas eu não havia dito ainda em quem ela iria se transformar. Acho que na hora pensou nas Divas clássicas. Marylin, Audrey, Rita… E quando eu falei de Amy, Lara ainda não a conhecia. Mandei umas fotos, musicas e reportagens. Mas confesso que omiti as notícias mais polêmicas, rs.

Convite aceito, veio o desafio: além da diferença de personalidade, os obstáculos físicos eram gigantes. Elas não se parecem em absolutamente nada, nenhuma linha do rosto. Talvez o branco do olho né?

Mas uma boa equipe abraçando uma idéia, opera milagres. As roupas e acessórios são todas de acervo pessoal, escolhidas por mim e pela própria Larissa.

As tatuagens foram desenhadas por Gabi du Gato, que é uma desenhista talentosíssima. Canetinhas coloridas na mão, poucos minutos e meio copo de cerveja depois, tava pronto. Ficamos todos admirados com a rapidez e a precisão do traço.

As fotos e a luz, são de Humberto Lopes. Ele fez um trabalho incrível, e teve uma ótima sintonia com Nalva. Humberto conseguiu captar exatamente as imagens que eu havia imaginado. Além disso, ele é um ótimo diretor de cena também, deixou Lara muito à vontade.

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Nalva fazendo a bruxaria dela e eu dando pitaco.

Franklin José fez as fotos do making off. Ele é estudante de direito, mas tem os dois pezinhos no jornalismo.  Também tem a cara da revista, e ainda deve aparecer muito por aqui.

Pra fechar o time, Raphael Bender fez o apoio logístico e moral da noite de fotos. Uma espécie de office boy de luxo rs. Pena não termos feito uma foto de todo mundo junto. É uma frase muito fresca essa, mas “foi uma noite mágica”.

Confira o resultado na galeria abaixo:

 

UPDATE: Tirei o ensaio do ar por um tempo porque a modelo me pediu para excluir justamente a melhor foto. Sem saber o que fazer, e com a cabeça a mil por causa do curso, resolvi deixar em stand-by até saber a melhor maneira de resolver o impasse. Numa situação dessas uma editora se pergunta: e agora?

O problema se tornou maior porque eu citava a tal foto no texto, trecho que segue riscado. E muita gente já havia comentado comigo como ficou divertida e espontânea.

Se eu fosse a diaba Anna Wintour, provavelmente teria agido diferente. Dizem que em situação parecida ela prefere se indispor com quer que seja, a sacrificar o conteúdo da revista.

Mas como meu blog não é a Vogue américa, nem eu quero ter a fama da diaba, resolvi agir diferente. Também pela relação pessoal que tenho com Larissa, e por entender que isso foi na verdade uma lição. Foi o primeiro ensaio que fizemos do tipo, e é uma preocupação que terei para os próximos. Sim, porque vai continuar nessa linha.  Modelo nada a ver com a personagem.

Isso é só uma pequena explicação para quem me perguntou porque não estava no ar. Muita gente também veio ao site procurar justamente o ensaio, e se decepcionou por não encontrá-lo. Então agora tudo de volta ao normal, ok?

Persona

terça-feira, 23 de junho de 2009

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Daqui a pouco tem surpresa no site! No primeiro editorial da revista, Nalva Melo – a encantadora de pincéis- fez uma transformação quase impossível. As fotos são de Humberto Lopes. Amanha conto todos os detalhes.

Deixo hoje só uma imagem pra vocês tentarem adivinhar quem são as personagens dessa história.