Artigos

De-ses-pe-ro*

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

*crônica originalmente publicada na Revista Versailles 17.

“Só conhece o real significado da palavra desespero, a noiva que, já na porta da igreja, derramou uma taça de vinho tinto no vestido”. Tenho uma amiga que adora repetir essa sentença. E o faz com muita propriedade, já que essa mini-tragédia aconteceu de fato com ela.

Eis que a moça estava já na escadaria da igreja, embrulhada num vestido branco alvíssimo. Era “a noiva mais linda do mundo”, porque todas as noivas o são. Um vestido de festa é, quase sempre, uma paixão na vida “modísitica”de uma mulher. O vestido de noiva é O grande amor da vida dela. Para a minha amiga, a história de amor com o vestido tinha mais tempo que a história de amor com o noivo. O namoro nem havia começado, quando ela encontrou e comprou o que definia como “o vestido de noiva mais incrível do mundo”. Nós achamos uma atitude completamente insana, mas, dois anos depois da compra – e um ano após encontrar o noivo – ela estava ali, prestes a entrar na igreja. Mais cedo, havia trocado o tradicional champagne que é servido durante o banho de espuma do “dia da noiva”, por um belo tinto seco – sua bebida preferida. Uma das moças do cerimonial manteve a garrafa e uma tacinha sempre à vista. A noiva estava nervosa pelo Grande Dia, e tinha, digamos, uma quedinha pelo álcool. Minutos antes de dizer o Sim, quis sorver um último gole – para entrar na igreja mais relaxada. Pronto! no instante seguinte o vestido exibia uma imensa mancha roxa. De-ses-pe-ro. O momento Heleninha Roitman custou caro.

Não deu tempo nem de chorar o vinho derramado. A moça do cerimonial colocou a noiva pra dentro da igreja dizendo “não sujou muito, nem dá pra ver direito”, e ela casou assim mesmo.

Dava para ver direito. E mais: ninguém conseguia olhar para outra coisa durante a cerimônia. Nem o padre.

O jeito foi pedir ao fotógrafo que imprimisse todas as fotos do casamento em preto e branco. A ausência de cor disfarçava um pouco a “estampa” indesejada no vestido.

Depois desse episódio, a noiva – agora esposa- trocou de bebida predileta, e planeja uma nova festa matrimonial. O objetivo é fazer muitos registros fotográficos coloridos, para compensar a overdose de preto e branco do primeiro evento. O problema é que o marido não está nem um pouco a fim de fazer (e gastar) tudo de novo. O melhor acordo que ela conseguiu foi a promessa de uma nova festa quando o casal estiver comemorando bodas de prata. Até lá é aguardar, tentar se manter jovem para as fotografias, e cuidar para que não entre vinho tinto na comemoração.

Serão 25 anos de espera. Pensando nisso ela se desespera. Mas lembra que desespero não é a palavra adequada. Desespero mesmo, vocês sabem o que é.

Crédito da imagem: GettyImages

Vamos falar de preto?*

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

* Esse texto foi escrito originalmente para a minha coluna na Revista Versailles, mas não foi aprovado e troquei por outro. Como fala de dúvidas bem comuns, que chegam todos os dias na minha caixa de emails, resolvi publicar aqui no blog :)

Vamos falar de preto?

Eu até tinha planejado falar sobre um assunto totalmente diferente nesta coluna. Estava lá o texto rabiscado, inacabado, deadline gritando e eu esperando um fio de inspiração para terminar de escrever. Mas nesse meio tempo aconteceu uma coisa inusitada, como que orquestrada para que eu mudasse o assunto da coluna: o mundo inteiro começou a me fazer perguntas sobre o vestido preto e seus “códigos sociais”.

Primeiro foi no twitter, quando várias mocinhas me perguntaram se “já estava liberado” usar preto em casamento. Depois foi uma amiga que ligou para saber “até quantos quilos a pessoa pode parecer mais magra usando preto”. E na mesma semana, num consultório médico, uma moça ruiva cheia de sardas puxa conversa: “você é consultora de moda, né? Vi uma entrevista sua na TV e sempre leio seu blog. Será que você poderia me tirar algumas dúvidas?”. Deixei de lado o despeito por causa do cabelo incrivelmente lindo que só as ruivas naturais tem, e fui solícita em conversar com ela sobre as dúvidas. A maior delas? Se poderia usar preto num batizado, ou se ficaria “parecendo que errou de cerimônia e estava indo a um velório”.

Olha gente, o preto há muito tempo venceu as barreiras do luto. Da mesma forma que o branco também se libertou do rótulo de “roupa de réveillon”. Hoje é totalmente possível, aceitável e elegante, usar preto nas mais diversas ocasiões.

Charlotte, elegante e corretíssima para subir ao altar como madrinha da amiga Carrie Bradshaw

Em relação ao casamento não há problema nenhum em ir de preto. A melhor maneira de escolher o traje é seguir a orientação dos noivos. Se no convite não há restrição em relação ao uso do preto, tá liberado! Algumas mulheres ficam mais inseguras ainda em usar preto quando são madrinhas. Isso é uma grande bobagem, pois a cor já tem passe livre até mesmo no altar. Lembram de Charlotte vestindo um modelo Zac Posen deslumbrante para o casamento de Carrie em ‘Sex and The City’? Pena que a cerimônia teve um fim trágico antes mesmo de começar (spoiler!), mas a culpa não foi do preto! Um noivo mal escolhido causa muito mais estrago que uma simples cor. Ah, e ainda no assunto “casamento” , é sempre bom lembrar que o branco, nessa ocasião, é vetado. É cor exclusiva da noiva.

Sobre a velha história de que preto emagrece, eu digo que as cores escuras – quando bem utilizadas – podem afinar UM POUCO a silhueta, mas nada radical ao ponto de você ficar “aparentemente 5 kg mais magra”. O que emagrece é comer bem e se exercitar. O resto é papo furado. Se o preto tivesse esse poder emagrecedor, não existira viúva gorda, né?

Preto em batizado? Não vejo problema algum. O único ponto negativo seria, se a cerimônia for de dia e ao ar livre, o calor. Mas se a roupa tem um tecido leve, e combinada com acessórios, cabelo e maquiagem delicados, tá tudo certo.

O espaço aqui é pequeno, e sei que o universo de dúvidas é bem grande. Então se você tem mais perguntas a gente pode continuar o papo por email, ok? Te espero no contato@saltoagulha.com

A moda e a estética do sertão*

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quando vi pela primeira vez a emblemática fotografia das cabeças decepadas do bando de Lampião, muitos detalhes me passaram despercebidos. Foi preciso outros encontros com a imagem, e olhares mais atentos, para que o detalhe mais interessante fosse revelado: as duas máquinas de costura nos cantos superiores da fotografia. Uma imagem carregada de simbolismo, que diz muito sobre a realidade da época.

uma das fotografias mais famosas da história do país, e as maquinas de costura lá…

No sertão da primeira metade do século 20, a máquina de costura tinha a importância que a televisão tem nos lares de hoje. O modelo Singer, que aparece na foto, era o sonho de consumo das donas de casa. O sertão fechado, terreno inóspito, de chão rachado e tapetes de macambira, era o que os cangaceiros tinham para chamar de lar. E era onde se costurava, bordava e adornava.

A Singer vestia o cangaceiro para o combate, a criança para o batismo e a noiva para o altar. Cobria a viúva com o luto, e as moças com o colorido da chita. Marcava períodos, fazendo bermudas (que se chamavam calças curtas), para os meninos, e calças compridas, para os homens. Coisas de um tempo em que ostentar o luxo de comprar roupas prontas, trazidas de fora, era coisa para pouquíssimos.

A estética do sertão é a estética da resistência. Da roupa usada até a fibra do algodão virar farelo. Do couro forjado em vestes para aguentar o peso da lida. Do vaqueiro com ares de cavaleiro medieval – não para se proteger de lanças de guerra, mas dos afiados espinhos da caatinga. Do aproveitar tudo até a última gota.

Muito ligado à natureza, o sertanejo carregava em sua indumentária as cores “puras”. O vermelho do sangue – para eles, o “encarnado” – lhes dava força. O branco das nuvens, a pureza. O azul, cor do manto de Nossa Senhora, também era a cor da água. E o homem do sertão tinha uma relação de verdadeira adoração com a água, sempre tão escassa, o que fazia com que o azul fosse a cor do acalanto, da serenidade. O amarelo, do ouro e da riqueza. Por vezes, todas as cores juntas, em combinações que a moda – aquela das passarelas – demorou a descobrir, mas que hoje não cansa de revisitar.

A herança estética que o sertão nos deixou é vasta. Rendas, bordados, estampas, materiais, texturas, artesanatos. Algumas dessas heranças mostram que a moda feita à mão tinha uma função social além da simples confecção das peças. O trabalho manual era momento de reflexão, era o divã das sertanejas. Quantas mães traçaram o destino dos filhos enquanto bordavam sentadas numa cadeira de balanço junto à janela? O olhar ora acompanhava a linha, ora se perdia no horizonte, mostrando que os dedos, de tão acostumados, já conseguiam seguir sozinhos, sem a supervisão dos olhos.

Imagem: daqui

Outras vezes, o divã era coletivo. Uma espécie de terapia de grupo, onde as mulheres expurgavam os problemas familiares, dividiam experiências e falavam da vida de outrem – mais ou menos como fazem nas academias de ginástica de hoje. A “terapia de grupo” foi responsável por batizar um tipo de trabalho manual muito característico do sertão: o fuxico.  Creio que não há quem não conheça, mas não custa explicar: são pequenas peças feitas de retalho, que se unem para formar blusas, colchas, toalhas, ou o que  mais a criatividade permitir. A hora de costurar, era também a hora da fofoca. Ou do fuxico, como preferem os nordestinos. E assim ficou batizado.

O homem do sertão também era vaidoso. Comprar roupa nova para as festas de fim de ano e para o São João, era sagrado. Encontramos traços fortíssimos da vaidade masculina onde menos esperamos: entre os cangaceiros. Frederico Pernambucano de Mello diz em seu livro Estrela de couro, a estética do cangaço [2010], que “o bando de Lampião, sobretudo nos anos 30, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”.

O próprio Lampião, vaidosíssimo, não abria mão do seu perfume predileto, o Fleurs D’Amour, da maison Roger & Gallet. A fragrância foi criada em 1904. Saiu de linha há anos, mas até hoje é possível encontrar raros frascos do Fleurs D’Amour à venda em sites como Ebay – a preço bem salgado, diga-se, por ser um perfume vintage.

O perfume preferido de Lampião, o Fleurs D’amour, em anúncio da época

Lampião também era um costureiro talentoso e dominava como ninguém a técnica do bordado à máquina. Há relatos de ex companheiros de cangaço, de que ele desenhava os modelos antes de levá-los à máquina, para garantir a perfeição (é certamente uma imagem cheia de dualidade, esta – a do cangaceiro estilista). Já alguns autores afirmam que trabalhos manuais delicados, como costura e bordado, tinham a função de higiene mental no cangaço.

A indumentária dos cangaceiros era imponente e chamava atenção de longe. À primeira vista, a falta de discrição no vestir seria uma contradição para um grupo que vivia quase sempre às escondidas, em fuga, perseguido pela polícia. Mas o traje do cangaceiro não era somente funcional: cada elemento da vestimenta tinha um papel importante de proteção – não só física, mas também espiritual. A “blindagem mística”, citada por Pernambucano de Mello.

Lampião sentando à máquina

Lembro de um episódio que meu bisavô adorava contar, sobre seu suposto encontro com Lampião, no sertão de Pernambuco. Vovô era rapazote e, no tal dia, dirigia por uma estrada de terra, conduzindo um carro carregado de bananas. Quando o veículo atolou, do meio do mato surgiu um grupo de homens, “com umas roupas que pareciam de vaqueiro, só que muito mais enfeitadas, cheias de moedas, coisas coloridas e coisas que faziam barulho”. Perguntaram o que o rapaz fazia, pra onde ia por aquelas estradas, e “se não tinha medo de encontrar Lampião”. Ao que meu avô, num ímpeto de coragem juvenil, respondeu: “Tenho medo não, que Lampião não é bicho”. O grupo deu uma gargalhada e ajudou o rapaz a desatolar o carro. Na despedida, apertaram as mãos e o chefe do bando disse: “Você sabe com quem está falando”? Diante da resposta negativa, ele concluiu: “Hoje você conheceu Virgulino Ferreira, o Lampião. E só deixamos você passar porque é um rapaz de coragem”.

Meu avô contava que depois disso “tremia feito vara verde” e demorou cerca de uma hora pra conseguir se acalmar, ligar o carro e ir embora.

Se a história é verdade, ou se ele contava apenas para deleite dos bisnetos, não sei. Mas sempre que ouvia isso, ficava imaginando as roupas daqueles homens.

O fascínio que a indumentária dos cangaceiros exercia sobre a minha imaginação de criança, não era diferente da admiração que causava ao povo da época. Há relatos de que até a polícia se deixou seduzir pelo visual do cangaço, e passou a se vestir de forma semelhante aos cangaceiros. Situação que fez um comandante emitir comunicado oficial proibindo os soldados de usarem qualquer coisa que não fizesse parte do uniforme em vigor, tais como “cartucheiras cow boy, chapéus exagerados à Lampião, enfeites amarelos nas bandoleiras, alpercatas de todo enfeitadas…”.

Mas, e hoje? Será que o sertão ainda guarda algum traço de pureza estética? 

“O sertão é um mundo que se foi” – afirmou certa vez Oswaldo Lamartine, em entrevista ao repórter Sérgio Vilar. Terá ido com ele, também, a identidade visual construída ao longo de tantos anos pelo povo sertanejo?

Para a escritora Clotilde Tavares, a televisão foi um forte agente transformador da estética do sertão. Com a TV vieram também as facilidades de acesso aos centros urbanos, às feiras do interior, à produção em larga escala. Hoje não há mais vantagem em costurar roupas em casa quando se pode ir à feira mais próxima e comprar peças a bom preço – e, o melhor, no mesmo estilo das celebridades televisivas.

Se algum resquício do estilo sertanejo de ontem ainda resiste, pensa Clotilde, ele se revela na paixão pelas cores. “Não conheço sertanejo que não adore uma cor forte, um colorido vivo, alegre. Hoje não vejo mais uma pureza estética no que se refere ao modo de vestir do sertanejo, mas o gosto pela cor permanece.”

De outra parte, o caminho inverso também acontece, e o sertão invade o resto do mundo através da TV. Uma das novelas de maior sucesso dos últimos tempos no país, Cordel Encantado – a “novela das seis” –, traz para as telas um sertão do início do século 20. A história se passa entre dois mundos imaginários – o reino de Seráfia, na Europa, e a cidade de Brogodó, no sertão brasileiro. O figurino é riquíssimo em detalhes, e, junto com a fotografia, é apontado como um dos principais elementos que contribuem para o sucesso do folhetim.

o romântico vestido de crochê da personagem Açucena. Comentado e desejado de norte a sul do país

Conversei com Karla Monteiro, que junto com  Marie Salles assina o figurino da novela. Ela contou que em meio ao extenso trabalho de pesquisa para montar o figurino dos personagens, surgiu o verbo “brogodar”, que se refere a bordar, tingir, trabalhar à mão as peças do núcleo da cidade de Brogodó. Tudo para dar vida a uma estética do sertão de ontem. Além disso, vários núcleos trabalham em conjunto para que elementos como rendas, bordados, couro e metal, estejam presentes no figurino. Ela resumiu parte do processo:

“Depois de ler a sinopse e de uma primeira conversa com nossos diretores Ricardo Waddington e Amora Mautner, onde a encomenda foi um mundo imaginário – afinal, os reinos de Serafia e a cidade de Brogodó não existem, a não ser no nosso texto –, começamos a pesquisa. Em um primeiro momento sobre a(s) época(s) da novela, final do século 19, quando a nossa história começa, e início do século 20. Depois fomos assistir filmes, pesquisar em alta costura, em livros de fotografia e álbuns de família. E  deixamos as necessidades de cada personagem ‘comandar’ nosso pensamento. Montamos vários ateliês. O de chapéu, comandado pelo Denis Linhares, chapeleiro carioca. O de envelhecimento e tingimento, e de marchetaria, com o Alex, artesão pernambucano, onde foi feito todo o trabalho de metal nas roupas dos cangaceiros. Dizemos que é um figurino de época com uma ‘pegada contemporânea’. Um olhar diferente da época porque cabe na nossa fábula brincar dessa forma. Quanto aos cangaceiros, a pesquisa foi feita em cima da indumentária dos vaqueiros, dos samurais, e sobre  Lampião e seu bando. Os gibões foram comprados em Fortaleza e adereçados no  nosso ateliê de marchetaria.” 

A moda brasileira há muito flerta com o sertão. Ora de maneira mais tímida, ora através de uma paixão mais declarada. O primeiro cupido desse affair foi provavelmente a mineira Zuzu Angel. Antes de entrar para a história por ter usado a moda para denunciar os horrores da ditadura, Zuzu já fazia história ao misturar artesanato nordestino com alta costura. O primeiro passo foi tingir algumas rendas – que eram utilizadas somente em panos de cozinha – na mesma cor dos tecidos nobres, e usar os dois materiais juntos em vestidos de festa. Depois ela fez peças com chita, bordados, labirinto, renda de bilro e até vestidos de noiva feitos com toalhas de mesa nordestinas.

o vestido noiva feito de toalha de mesa de Zuzu Angel

Outro aparecimento marcante do sertão na moda brasileira aconteceu em 2006, com a coleção “O sertão ri”, do também mineiro – e não acaso admirador do legado de Zuzu Angel – Ronaldo Fraga. A coleção foi toda inspirada na obra de Guimarães Rosa, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Na apresentação do trabalho, o estilista afirmava: “O sertão é um só, e por não ter portas e janelas ele está em todo lugar.”

O sertão podia não ter portas, mas a moda brasileira tinha voltado a fechar algumas. Quarenta anos após Zuzu Angel, a desvalorização do artesanato nordestino havia voltado a ser uma pesada porta à espera de novamente ser derrubada. A renda de bilro era bonita para levar pra casa como lembrança das férias ensolaradas, mas para as passarelas – e para as vitrines mais refinadas – não servia.

O desfile de Ronaldo Fraga trouxe as cores e as texturas do sertão de volta aos holofotes. Nos anos seguintes, as próprias transformações sociais, que obviamente ecoam na moda, ajudaram a agregar valor e prestígio à estética nordestina. Começou-se a falar em economia criativa, sustentabilidade, e o artesanato ficou chique – passou a ser chamado handmade. Fazer o quê se a moda precisa de um estrangeirismo besta para agregar valor ao que antes não enxergava como tesouro?

modelos da coleção ‘O sertão ri’, de Ronaldo Fraga. Imagem: Oficina de Estilo

Assim, o sertão ganhou passe livre na alta costura brasileira. Entre uma coleção e outra, sempre aparece alguém tomando aquele pedaço de chão como inspiração. Mas o grande destaque dos tempos atuais, o sertão deve ao poder das novelas, como as maiores catalisadoras de tendências de moda do Brasil.

 “Para mim o artesanato nacional sempre esteve na moda, mas é uma surpresa que uma novela de época tenha essa força. O nosso intuito ao conceber e realizar o figurino foi a busca pelas características de cada personagem para ajudar a contar essa fábula deliciosa de fazer e de ver”, pondera a figurinista de Cordel Encantado.

Também têm um quê de fábula algumas coleções de estilistas potiguares inspiradas no sertão. Não por fugirem à realidade, mas por retratarem um sertão de lembranças.

A estilista Eveline Santos, da Avohai, fez uma coleção inspirada na natureza de Jardim do Seridó. As peças são cheias de detalhes que estimulam a memória afetiva de quem cresceu no sertão.

Em Currais Novos encontramos a Ana Marcolina, marca de Luciana Mamede, sempre bebendo na fonte  inesgotável de inspiração que é a região do Seridó.

Já o estilista Riccard8 San Martini, acaba de lançar uma coleção intitulada “Asa Branca”, que tem inspirações que transcendem a localização geográfica, mas que usa materiais tipicamente nordestinos – e já faz sucesso com um bracelete de couro que vestiria tão bem um cangaceiro quanto um gladiador.

croqui da coleção ‘Asa Branca’, de Riccard8 San Martini

Enquanto isso, em Nísia Floresta, a poucos quilômetros de Natal, um homem sonha com um Museu do Vaqueiro. Guardião da estética sertaneja, o empresário, músico e pecuarista Marcos Lopes é um purista quando se fala em tradição nordestina. Ele mantém um espaço onde funciona o tradicional Forró da Lua. O evento acontece uma vez por mês, promovendo um típico forró pé-de-serra, iluminado, é claro, pela lua cheia.

Marcos Lopes tomou pra si a missão de manter vivas as tradições do lugar onde cresceu. Com recursos do Banco do Nordeste (BNB), ele conseguiu viabilizar um projeto que oferece oficinas de sanfona e de artesanato em couro para crianças de Nísia Floresta. O mestre Júnior Souza vem de Cabaceiras,na Paraíba, ensinar a secular arte de trabalhar o couro, principalmente o couro de bode – o mais versátil e maleável. Durante as aulas são produzidos pequenos objetos como chaveiros, sandálias e chapéus em miniatura. A ideia é que com mão de obra especializada, o artesanato em couro possa vir a ser uma atividade econômica para a região.

O mestre explica que, em Cabaceiras, o couro é responsável por boa parte do dinheiro que circula na cidade. “Eu trabalho em uma fábrica de chapéus que fornece para o Nordeste inteiro. O couro é uma atividade econômica forte lá na minha cidade. Tem tradição, né, tem fama, aí todo mundo procura. Não falta trabalho pra quem quer e sabe trabalhar o couro. Já aqui a gente não vê esse tipo de trabalho”, compara.

Enquanto as crianças aprendem os mistérios do couro, é possível observar em cada canto da fazenda um pedacinho de história do Nordeste. Várias partes da indumentária do vaqueiro espalham-se pelo espaço. É o acervo do futuro Museu do Vaqueiro, que, enquanto não tem espaço próprio, fica exposto ali mesmo. Muita coisa está na família de Lopes há anos. Outras tantas são doações de gente que conhece o trabalho dele. Há um projeto aprovado na Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo para a construção do Museu, mas os recursos ainda não foram captados. Enquanto isso, Marcos vai catalogando as peças, e contagiando o máximo de pessoas que encontra pelo caminho com sua paixão pelo Nordeste. É assim, com um impressionante entusiasmo ao falar do museu, que ele consegue parcerias para colocar os planos em prática.

Fico imaginando como será quando o museu estiver pronto. Durante a curta, mas intensa “viagem” que fiz, olhando as selas, chapéus e gibões, penso que entrar nesse museu será como atravessar uma porteira de fazenda. Daquelas fazendas que quase todo Nordestino tem na lembrança. Mesmo quem nasceu no litoral e visitava o sertão somente nas férias, como eu. Mesmo quem não tinha essas férias, mas que, ao menos uma vez na vida, foi recebido em uma casa sertaneja.

E aí pensei na força da estética do sertão. Porque sempre que se fala em uma imagem que represente o Nordeste, a primeira visão que nos vem é a do sertão e não do litoral. É admirável o poder de um ambiente cinzento e pobre, que consegue se sobressair à outro leve e próspero.

É a bela vitória da meia-lua com estrela sobre a vela da jangada.

*texto originalmente publicado na revista Preá #24. Para ler outros artigos da revista, consulte a versão on line aqui.


 

Ah, não precisa! (Minha coluna na Revista Versailles)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Lembram que contei aqui que eu iria assinar uma coluna sobre moda & festa na Revista Versailles?

Pois bem. A revista foi lançada na última terça feira, e aproveito para postar aqui o meu texto de estreia.

Minha página na revista

Para respeitar o espaço da página, tive que fazer uns pequenos cortes, mas aqui no blog vai o texto integral:

Ah, não precisa!


Um homem e uma mulher são convidados para uma festa.

Para ele, a festa começa no exato momento em que entra no local apontado pelo convite e pega o primeiro copo de uísque ou cerveja.

Para ela, a festa começou muito antes. Semanas antes. Quando começou a pensar no que deveria usar, procurou foto de alguma atriz no tapete vermelho do Oscar para copiar penteado e maquiagem, reservou horário no cabeleireiro…

Se a festa for realmente muito importante, pode ter começado até com meses de antecedência. Uma ida à nutricionista para iniciar uma nova dieta, matrícula na academia para exibir braços mais torneados no decote tomara que caia (não vai surtir efeito, mas quem se importa? O que vale é a sensação boa de estar se preparando). Para nós mulheres é assim. O ritual pré-festa chega a ser mais excitante que a própria comemoração.

Mas toda essa excitação vai por água abaixo quando uma figura masculina – namorado ou marido (mas dizem que maridos fazem mais isso) – ignorando toda nossa empolgação, diz: “Ah, não precisa…”

Pausa dramática!

Escute bem, meu camarada, e guarde para sempre o que vou dizer agora: o que nós não precisamos é ouvir esse comentário broxante.

Se você tivesse o mínimo de sensibilidade, veria os cubos de gelo caindo do imenso balde de água fria jogado na cabeça da sua amada quando são pronunciadas essas três palavrinhas.

Quando uma mulher exibir seu melhor sorriso para contar algo do tipo “comprei um sapato lindo e consegui marcar hora com o melhor maquiador da cidade para aquela festa”, a última coisa que ela espera ouvir na vida é: “Ah, não precisa…”

Qual a dificuldade que existe em comentar que será ótimo, e que ela vai ficar linda?

Quando dizemos que vamos ao cabeleireiro, ou que precisamos comprar algo que nos é mais vital que oxigênio naquele momento, não estamos perguntando sobre a real necessidade daquilo.

Queimamos sutiãs, trabalhamos fora, tomamos pílula e ficamos neuróticas, tudo para ter o direito de gastar o nosso próprio dinheiro com o que os homens acham que é frescura. Então nos deixem em paz para fazê-lo.

Eu bem sei que a intenção deles é das melhores. Que se o peito e a bunda não mudaram de lugar, eles nos acharão lindas – independente da maquiagem e do sapato. Mas sabe o que acontece? Nós convivemos com nossas curvas desde a adolescência, e não nos deixamos mais seduzir por elas. O que nos chama atenção mesmo, que faz nosso olho brilhar, é um cabelo de cinema, um vestido de sonho, uma maquiagem que não sabemos fazer sozinhas.

É difícil fazer um homem entender a diferença entre uma maquiagem feita em casa e uma obra prima de profissional. Mas o que esperar de uma criatura que não saberia encontrar o côncavo do olho nem com o melhor GPS de um dos seus gadgets?

Deixo aqui meu apelo aos homens, para que parem de dizer que as mulheres não precisam se arrumar tanto. Porque se elas pararem de se preocupar com a beleza nas festas, esta minha coluna perde a razão de existir. E é triste deixá-la morrer assim, tão novinha, com apenas uma edição de vida…

Agora, amigo, se você não é capaz de fazer isso por mim, faça por você mesmo. Porque um dia sua namorada pode cansar de ouvir esse tipo de comentário, olhar para você e pensar: “Namorado? Ah, não precisa!”

*E a moda lá tem futuro?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

*Texto originalmente publicado na revista Perigo Iminente. A publicação homenageou o centenário da palestra “Natal daqui a 50 anos”, do jornalista potiguar Manoel Dantas. A ideia era escrever um texto sobre o futuro da moda no Rio Grande do Norte. Saiu isso.

Pierre Cardin, catálogo de 1970.

O leitor prefere a notícia boa ou a ruim primeiro? Vamos começar pelo mau agouro, porque depois, o que vier é lucro.

Nem se findou a primeira década do século XXI, e há quem diga a terra não leva mais que um punhado de anos para se tornar inabitável. Água já é certo que vai se acabar. O queridinho dos noticiários, o tal de aquecimento global, vai trazer mais um bocado de estrago. Níveis altíssimos de radiação solar, e até o ar que respiramos vai sucumbir à poluição. A moda como qualquer outra manifestação da cultura vai acompanhar a evolução (se é que assim se pode chamar) da humanidade.

Se já foi dada a largada para o princípio do fim, então que fechemos os olhos e imaginemos a moda daqui a 50 anos, especialmente na cidade que é a noiva do sol. Ops, eu disse noiva-do-sol? Coitada… Se ela tivesse imaginado que assim seria, rejeitaria o pretendente antes mesmo do primeiro beijo. A relação estável da cidade com o astro-rei, que tanto nos orgulhou no passado, é hoje um catalisador de desgraças. Quando o calor chegou a um nível humanamente impossível de suportar, a ciência conseguiu desenvolver uma roupa especial que mantém o corpo refrigerado. Uma espécie de uniforme usado por todo mundo, ou pelo menos por quem quer se manter vivo, é o que se vê nas ruas. Assim, calças, saias, camisetas, vestidos, biquínis (ah os biquínis…), tudo virou peça de museu.

Quando o câncer de pele tornou-se a causa mais comum de morte na terra, desapareceu a maquiagem. A única coisa que se usa, é um filtro solar que – apesar de potente – sozinho não seria suficiente. Por isso usam-se chapéus, óculos e luvas, além do macacão padrão.

Com a poluição do ar, máscaras de oxigênio também entram no figurino. É um acessório obrigatório. Dizem os mais velhos, que elas são como foram um dia os brincos e o batom para as mulheres. A diferença é que não corríamos o risco de morrer caso não cumpríssemos a regra, dispensando estes últimos acessórios.

Já falei das cores? Bem, não há muito que falar. Nosso uniforme é prateado, para refletir e dissipar o calor. E onde há muito movimento de pessoas, o cenário se assemelha a um labirinto de espelhos. Os apaixonados por moda e pelos grandes criadores, podem tentar ser otimistas e pensar que mesmo em meio a tantas adversidades, o figurino futurista pode ter certo charme, tal como imaginaram Paco Rabanne e Jean Paul Gaultier nos filmes Barbarella e O Quinto Elemento – ambos sobre um futuro distante. Mas sejamos realistas, e a vida real é bem menos glamurosa. Nem Jane fonda nem Milla Jovovich passeiam pela Avenida Rio Branco, e o futuro dos filmes foi pensando de modo a não perturbar a imagem de sex simbol das musas. Aqui a história é outra. Há tempos homens e mulheres não sabem o que é vaidade. Todos têm um ar andrógino. As mulheres da terra de Poty, que outrora deixavam ate de comer para pagar a prestação da lipo e do silicone dividido em 24 prestações pelo cirurgião amigo, hoje têm outras preocupações.

Somente uma coisa não mudou. Como sempre foi, em Natal as pessoas continuam a parecer produzidas em série. Se antes os homens usavam o mesmo carro, as mesmas roupas, o mesmo tênis e malhavam na mesma academia, pelo desejo – para mim inexplicável – de ser aceito em determinado grupo social; se antes as mulheres usavam o mesmo cabelo, a mesma maquiagem, o mesmo peito e a mesma bunda com intuito semelhante ao masculino, agora todos são iguais por imposição das circunstâncias. Devem viver felizes assim. Somente uns e outros gatos-pingados que gostariam de se diferenciar da manada, que se tivessem vivido em outros tempos usariam qualquer coisa, freqüentariam qualquer lugar, se portariam de qualquer maneira que não fosse a convencional, sentem que algo está errado, e que as pessoas não foram feitas para serem cópias umas das outras.

Mas eu prometi uma boa notícia não foi? Bem, existe a possibilidade de acordar ainda na beirinha do abismo, antes de ser tarde demais. Algumas ações já apontam para isso, principalmente na indústria da moda. Tecidos inteligentes, materiais recicláveis, tudo cada vez mais “ecologicamente correto”. Além de uma mudança de pensamento e comportamento, é claro. De que a moda não está aí pra excluir ninguém.

Na visão otimista do nosso futuro, o habito de consumir só pelo preço, ou por um glamour que muitas vezes não se sabe nem de onde vem, ignorando que estilistas são sim artistas, vai desaparecer. O que significa a vitória da diversidade.

Dificilmente surgirá um só grande mestre coordenando essa transformação, como foi Paul Poiret, que fez algo semelhante quando libertou as mulheres dos espartilhos no início do século XX, exatamente enquanto Manoel Dantas fazia suas previsões. O mais certo é que surja cada vez mais artistas, cada um fazendo um pedaço aqui e acolá, fazendo surgir – e reinar absoluta- uma moda mais democrática, inclusiva e criativa.

É o final alternativo de uma história que ainda não foi escrita.

*Meu não-vestido dos sonhos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

*Texto originalmente publicado na Revista Versailles. É a versão bem humorada de uma situação dramática. Historinha real viu meninas?

Roma 1970's (Helmut Newton)

Sabe aquele samba famoso, dos versos “com que roupa eu vou/ pro samba que você me convidou”?  Pois bem. Se até o poeta Noel Rosa viveu um momento dilema-fashion, quem sou eu para escapar ilesa da dúvida na hora de escolher o modelito perfeito, para uma ocasião especial?

Toda mulher, em algum (s) momento (s) da vida passa por isso. Agora imaginem uma jornalista apaixonada por moda, tentando escolher o que vestir na noite de lançamento da revista que idealizou, escreveu e editou.  Uma revista de… moda, é claro!

Essa era eu, o retrato do desespero, às vésperas do lançamento da minha revista, sem roupa para usar na Grande Noite.

Durante meses escolhi roupas para as fotos dos editoriais, dirigi fotógrafos, modelos e maquiadores, coordenei a diagramação, editei textos, escrevi, escrevi e escrevi. Mas só depois, com a revista já em mãos, é que lembrei que em poucos dias haveria o lançamento. O momento de mostrar a publicação ao mundo – ou aos meus convidados, o que já era um pedaço importante do meu mundo. E nessa hora pensei que o figurino daquela noite tinha que ser muito especial.

Aí começou meu calvário. Com pouco mais de um par de dias para encontrar um modelo absolutamente fabuloso, peregrinei sem sucesso pelas lojas da cidade. Até que um dia Ele me encontrou. O vestido. Enquanto eu pagava o ticket do estacionamento em um shopping, senti que me olhava, e olhei de volta. Era lindo. Leve, longo, colorido, alegre, volume discreto nas mangas, de corte império e com um longo decote nas costas. Quando nossos olhares se cruzaram, lembro de ter visto uma brisa sacudir levemente seu tecido, num balanço romântico e irresistível. Mas aí posso estar fantasiando, já que acabei de me dar conta de que os shoppings são caixas de concreto com ar refrigerado, e nenhuma brisa corre ali. Mas ok, me deixem romantizar o momento.

Caminhei hipnotizada até Ele, e pedi para provar. Aí meu mundo veio abaixo. Com uma indiferença gélida à história de amor que começava ali, a vendedora – com aquela entonação na voz que só elas têm – sentenciou: “Onlhan, é peçan únican, não podje tirar da vitrineam”.

Oi?! Que espécie de loja expõe algo que não pode ser nosso? Que nos conquista, mas não está disponível? Achei um absurdo. Argumentei, implorei, expliquei a situação, disse que estava apaixonada, me prontifiquei a pagar a mais pelo vestido, ofereci propina… e nada! Nada a fez mudar de ideia!

Mas havia uma luz no fim do túnel. A vitrine seria trocada no dia seguinte, mesmo dia da minha festa. Era arriscado esperar, melhor seria comprar logo outro. E se não vestisse bem? Ora, se Ele não me servisse, não teria me paquerado daquele jeito! A vendedora ficou de me ligar no dia seguinte – quando trocasse a vitrine – e resolvi esperar.

Como ela não ligou, liguei eu. Do outro lado da linha: “tiramox da vitrineam, podje vir provar”. Aleluia! Como eu esperava, ficou perfeito. Feito para mim. Quando nos tocamos – eu e o vestido – nossa paixão foi confirmada. Já me dirigia ao caixa para pagar, quando a vendedora fez meu mundo cair pela segunda vez, e dessa vez sem possibilidade de levantar: “não podje levar, porque tem maix cinco pessoans na fila dje esperan pra provar o vestidon”. Naquela hora eu entendi porque as chacinas acontecem, e vocês já devem imaginar qual era o meu desejo, né?

Achei que seria muita humilhação passar o dia na loja esperando mais cinco pessoas provarem o vestido, até porque eu nem poderia fazer isso. Em poucas horas tinha que estar na minha festa. Olhei pela última vez para o meu vestido, ergui a cabeça, torci para que nenhuma das outras clientes efetuasse a compra e a loja amargasse aquele prejuízo pra sempre, e fui embora. Não foi a minha primeira história de amor não concretizada, e não seria a última. Como sempre, eu sobreviveria.

Entrei em outra loja e comprei o primeiro vestido que me caiu bem. A vendedora desta segunda loja não parava de me fazer “elogios de vendedora”, aqueles tão verdadeiros quanto uma nota de duzentos reais. Quis atirar nela também. Uma vítima a mais para a minha chacina.

Segui em frente. Meu mau humor persistiu até o local do lançamento. Mas foi só colocar meus pés lá dentro, que tudo mudou. As revistas empilhadinhas e espalhadas pelo salão, fizeram meu olho brilhar. Todos os meus amigos estavam lá, e muita gente que nem conheço também estava. Outro tanto de gente que admiro se derramava em elogios à revista. Gente exigente, que não estava ali somente para agradar. Tudo foi maravilhoso. Um dos dias mais felizes da minha vida, perdendo só para o nascimento do meu filho. Opa, eu não tenho filhos! Então foi O dia mais feliz da minha vida. Primeiríssimo lugar.

E então eu aprendi uma lição que quero compartilhar com vocês, que estão sempre à procura de vestidos especiais para festas maravilhosas: É só roupa gente. É só linha e tecido. A festa vai ser perfeita se tiver que ser, independente do pano que te cobre.

NFW: Pra ver ou pra ser visto?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Imagem 001Blog

Natal Fashion Week:A platéia também quer ser fotografada!

Antes de tudo é preciso deixar os leitores avisados: Não se trata aqui de uma resenha do evento. As marcas que desfilaram e o que mostrou cada uma delas, você pode ver em outros tantos sites.

Por aqui, e por enquanto, só algumas impressões bestas sobre a noite de ontem.

Há anos eu acompanho o natalféxionuíque. A propósito, seria tão mais bonito se cada país substituísse o FW pelo seu próprio idioma né? Olha que lindo, seria “Semana de Moda de Natal”! Eu prefiro.

Mas não nos percamos em idéias paralelas. Ia dizendo que observo ano após ano, o mesmo comportamento: A inversão platéia –> passarela.

Explico. Um desfile é um espetáculo, e as atenções teoricamente estão voltadas para o palco – no caso, a passarela, certo?

Errado, se estivermos falando do NFW.  Aqui ocorre um fenômeno que, certamente não é exclusividade potiguar, mas chama atenção. As pessoas estão ali muito mais para serem vistas do que para ver qualquer desfile.

É natural para quem gosta de moda se comunicar através do que veste. Aliás, para todo mundo, gostem ou não disso. A diferença é que quem curte moda escolhe a mensagem que quer passar.

Ei, olhe meu jeans caro que uso com pulseiras que comprei na feira: gosto de contrastes. Veja como eu misturo estampas de um jeito que ficaria terrível em qualquer pessoa, mas todo mundo acha que fica ótimo em mim: tenho personalidade. Viu como todo mundo me olha quando uso minissaia e decote?: sou insegura em tudo que faço, uso a sensualidade e a beleza para ser aceita.

E por aí segue a comunicação. O que vi ontem foi um monte de gente querendo falar ao mesmo tempo. Sem pedir licença, sem levantar a mão ou pedir a vez. Tinha gente querendo dizer que emagreceu, que é o melhor jornalista, que está muito melhor depois da separação, que é fashion, que não é gay, ou que é e quer  que mais gente saiba, que saiu do armário, ou que se arrependeu de ter saído (porque tava bêbado)e quer voltar, que tem muito dinheiro, que tem muitos amigos, que entende de cabelos, que é amigo(a) de pessoas influentes… ah! Foram tantas mensagens que não deu pra decorar todas…

Então pra finalizar vou comentar uma mensagem mais direta, verbal mesmo. “Eu leio seu blog e gosto muito do que você escreve. Gosto mais ainda quando você dá sua opinião, porque muitas vezes é a minha também. Mas mesmo quando não concordo com você, também gosto do que diz, só pelo jeito divertido que você escreve”. Nossa! Tem coisa melhor de escutar?

Também tiveram outras tantas mensagens do tipo “eu também tenho um blog e adoro moda”, que fizeram a noite valer a pena.

E que me inspiraram a escrever esse post. Então nada mais justo que agradecer às meninas blogueiras Fernanda, Aline e Janaina. E às minhas leitoras que deixaram de ser anônimas: Gabi e Katarina.

Esse posto é beijinho em cada uma de vocês!

Lembranças tecidas em roupas**

sábado, 27 de junho de 2009

**Por Sarina Sena - jornalista potiguar pelo mundo. grande amiga. olhar sensível para a moda.

casacos1

A gente convive com isso diariamente mas muitas vezes nem nos damos conta: nossas roupas estão impregnadas de memória. Seja aquela roupa-talismã que associamos aos momentos de sorte, seja aquela mancha de chocolate que nos lembra o passeio de domingo ou até aquele rasguinho provocado por uma queda desastrosa.

 

No pequeno e muito interessante livro “O Casaco de Marx. Roupas, memória, dor”, de autoria de Peter Stallybrass, a trajetória que o casaco de Karl Marx descreve indo e vindo do corpo de seu dono à loja de penhores é refletida na obra “O Capital”. A memória que o casaco carrega e a relação do seu dono com o mesmo acabaram por gerar reflexões sobre consumo, valor dos bens de consumo e a relação deles com as pessoas.

 

No trabalho de figurino, é comum forjar “memória” às roupas dos personagens. Uma roupa nova, acabada de sair da loja, nunca tem as texturas, caimento, cores e desgastes de uma roupa já usada. Para dar realismo a uma roupa nova é que os figurinistas muitas vezes lixam, fazem pequenos furos e desbotam a cor de algumas peças. Não raro, o ator passa a vestir nos ensaios e até no seu dia-a-dia alguma peça para que ela tome a forma do seu corpo, como as dobras no joelho e o desgaste de uma barra de calça jeans, por exemplo.

 

Outro grande exemplo do valor simbólico e de memória que as peças de roupa possuem é no momento da morte de um ente querido. Para muitas pessoas, encarar o guarda-roupa de alguém que morreu é algo difícil e doloroso. Naquele momento, a roupa traz em si a imagem e o cheiro do seu antigo dono, levando muitas vezes seus parentes próximos ou não quererem entrar em contato com aquelas peças ou, por outro lado, não terem coragem de se desfazê-las.

 

Além das memórias pessoais, a roupa, aqui em sua faceta de Moda, reflete também acontecimentos de uma época. Tecidos, cortes, cores e modelos nos lembram certo período ou acontecimento histórico. Quem viveu a juventude nos anos 1980, por exemplo, vai se lembrar de bandas, festas, músicas, ídolos e tantas outras coisas ao se deparar com uma foto de uma roupa de estilo new wave.

 

Recentemente, tivemos o caso tão comentado da morte de Isabela Nardonni. Apesar da exaustiva repercussão na mídia e muito se falar sobre a tragédia, talvez você não tenha atentado para um pequeno detalhe: uma das provas de acusação contra o pai da garota foi exatamente as marcas que a tela de proteção da janela imprimiu na camiseta dele.

 

Com a tecnologia, o futuro próximo nos promete a “memória virtual” das roupas. Sensores atrelados a chips registrarão e irão monitorar nossas funções vitais, identificando e avisando a familiares ou serviços médicos alguma irregularidade na nossa saúde.

 

 

Para saber mais:

 

- “O Casaco de Marx. Roupas, memória, dor”

Autor Peter Stallybrass

Editora: Autêntica

casaco1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

- http://www.defenselink.mil/news/newsarticle.aspx?id=25636

Projeto do exército americano desenvolvido em 2004, previsto para ser utilizado em 2010. Os uniformes dos soldados iriam monitorar seus sinais vitais e enviariam para as bases alerta com informações sobre o ferimento e o estado de saúde do soldado ao ser atingido em combate.

 

- http://wearables.unisa.edu.au/

Projeto da University of South Australia (UniSA) de roupas inteligentes que além de monitorar as funções vitais do seu usuário ainda traz opções como ajuda na escolha de acessórios.