O casamento sempre foi gay*

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*Crônica publicada na Revista Versailles, onde assino uma coluna sobre moda & festa.

Não tem outra. Em se tratando de casamento, o assunto do momento é a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Ou, no popular, o casamento gay. A novidade diz respeito à legislação, mas a gente quer saber mesmo é de festa. E como uma coisa puxa a outra, com a legalização do casamento civil muito mais festas de casamento gay devem pintar por aí. Mais dia menos dia vai aparecer um convite na sua porta.

Se você é do time que segue à risca as regras de etiqueta e acha que todo evento deve ter um código próprio de conduta, vai ficar se perguntando se tem alguma coisa diferente no casamento gay.

Mas relaxe. A verdade é que o casamento sempre foi gay. Tem entrada triunfal, tem glamour, tem figurino especial, tem decoração temática, tem gente o tempo todo fazendo carão pra foto e, como toda boa festa gay, tem mais bebida do que todos os convidados conseguirão consumir.

O que vai ser diferente mesmo, na minha opinião, é a nossa preocupação com o look da festa. Se para um casamento cotidiano a gente já se desespera para escolher o combo vestido + sapato + cabelo + maquiagem, imagine para o casamento do seu amigo gay! Aquele que tem um bom gosto absurdo e que vai usar um modelito feito sob medida pelo último alfaiate remanescente de uma casta de mestres-alfaiate canhotos do Leste Europeu. E você pensando em pegar o vestido de formatura da sua prima emprestado… Não rola, né?

Em Sex And The City 2, Carrie Bradshaw é madrinha de casamento do melhor amigo – o querido Stanford – e escolhe um look masculino para a cerimônia. Vai de smoking, mas usando um salto altíssimo, provavelmente um Manolo Blahnik. Ela repete o tempo todo para o marido que não é um “gay wedding”, mas sim uma celebração do amor de duas pessoas – e isso não tem a ver com o sexo de cada uma delas. Até que eles chegam à festa e há um lago artificial com cisnes brancos, um coral de boys magia e quem celebra a cerimônia é – apenas – Liza Minelli! Samantha, outra personagem do filme, explica “é uma lei da física. Quando existe tanta energia gay reunida, Liza Minnelli se manifesta”. Aí Carrie se dá por vencida e afirma para o marido: “Yes, is a gay wedding!”

E é também o melhor casamento do cinema nos último tempos! A cena é encerrada em grande estilo com Liza Minnelli cantando e fazendo toda a coreografia de Single Ladies.

Em resumo, o casamento gay é como qualquer outro casamento, só que mais divertido. E eu não vejo a hora de estrear em uma cerimônia assim. Se você está lendo isso e planejando seu casamento gay para os próximos meses, me chama vai!

 

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A cara nova do blog ♡

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Fiz um monte de mudança no blog e continuei aloka postando sem falar das novidades, né?

Mas, antes tarde do que nunca, eis um post de apresentação do novo layout! 😀

Eu tava cansada daquela carinha antiga do blog e aquele formato tinha um monte de errinho que me enchia o saco. Além de que as categorias eram mal divididas e tinha post que eu não sabia onde colocar. Uma confusão só.

Por último, um motivo mais nobre: queria uma cara mais fofa pra esse cantinho aqui.

Mantive a rendinha como pano de fundo, mas mudamos as fontes e, principalmente, as categorias do menu.

Em moda (é um pouco óbvio kkk) você vai encontrar tudo que faz parte do gigantesco universo da moda: estilo, tendências, compras, minhas impressões sobre as coisas da moda em geral.

Em beleza vou falar de maquiagem, perfumes, prdutos para o corpo e – principalmente – compartilhar mais coisas sobre cabelos cacheados. Me libertei de vez da escova e tenho feito cada vez mais descobertas legais do mundo encaracolado. Pode esperar muito post sobre isso nessa tag!

Adoro! é a categoria mais genérica do blog. Depois de criar todas as outras vi que faltava alguma coisa para incluir tudo que me interessa mas que não está exatamente dentro do universo moda-beleza. Assim nasceu a Adoro! onde vou postar sobre tudo que eu curto: viagens, gastronomia, lifestyle…

Essa é o meu xodó! Não poderia faltar um espaço para publicar minhas matérias, né? Em jornalismo vou postar as reportagens que escrevo para jornais, revistas e algumas coisas da minha vida de jornalista-repórter. Pra quem gosta de jornalismo de moda e de textos longos, vai ser uma tag movimentada 😉

Sempre fui uma caçadora de livros de moda. Compro numa velocidade maior do que leio, mas tenho uma listinha de livros maravilhosos para quem gosta de moda e espero conseguir fazer resenha de todos nos próximos dias. Também me pedem frequentemente indicações de livros para quem quer começar uma biblioteca de moda, então pretendo atualizar essa categoria pelo menos uma vez por semana. Ah, e claro que podem surgir livros que não são de moda por aqui, o negócio é bem livre. Como não costumo postar muito look, vamos de book!

Vocês sabem que mudei pra São Paulo e estou – aos poucos – descobrindo a cidade. Acho que vai passar uma década e não vou ter desvendado todos os mistérios da Paulicéia, mas essa categoria é para postar coisas legais-incríveis-maravilhosas que vou descobrindo por aqui.

E claro que tem um espaço especial para continuar postando as coisas da minha cidade linda do ♥. Continuo publicando coisas legais da cidade e estou sempre por lá, então vai ser uma tag bem ativa também. Vou escrever sobre coisas de Natal como sempre escrevi, o diferencial agora é que tem meus amigos daqui de SP cobrando “dicas” de Natal o tempo todo e programando loucamente as próximas férias 🙂

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Pronto! Blog novo apresentado para vocês. E aí, gostaram?

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Grife do cangaço*

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*Matéria feita por mim para a revista digital Living For. Gente, eu amei muito escrever esse texto! Sempre admirei o trabalho do Mestre Espedito e foi delicioso escrever sobre ele. Quem ama a estética do sertão e todo o significado que ela carrega também vai curtir 😉

 

Se o hábito faz o monge, é Seu Espedito Seleiro quem ajuda a fazer o cangaceiro. Essa história começa na cidade de Nova Olinda, Cariri Cearense, quando Espedito Veloso de Carvalho era ainda um menino de oito anos. O pai dele – assim como o avô e  o bisavô – era vaqueiro e seleiro. De dia estava embrenhado no meio da caatinga correndo atrás do gado. À noite acedia a lamparina no alpendre e virava artesão. Fazia selas, chapéus, peitorais, perneiras e gibões de couro. Toda a indumentária do vaqueiro, uma espécie de armadura de couro. Na época era comum que o próprio vaqueiro confeccionasse suas vestes. Ou ao menos tentasse uma vez. Se levasse jeito, acumulava os dois ofícios. “Casa de pai escola de filho”, é o ditado que Seu Espedito Seleiro sempre usa para justificar a escolha da profissão que exerce até hoje, aos 74 anos, e que lhe rendeu o sobrenome. “Eu segui os passos do meu pai, do meu avô e de toda a família deles. Mas só segui com o couro mesmo. Ser vaqueiro não levo jeito, não. Tentei uma vez, pra nunca mais! Era só pra cair mesmo”, lembra emendando com uma gargalhada. O talento que ele não herdou para ser vaqueiro, veio em dobro para ser artesão. Desde cedo ajudava o pai e era “astucioso”, como se diz lá pelo sertão.

Durante muito tempo o pai de Espedito fez as peças em couro que vestiam os cangaceiros da época. Tudo começou quando um belo dia ele recebeu uma encomenda diferente: “Um rapaz passou lá em casa e pediu pro meu pai fazer um modelo de ‘alpercata’. Disse o jeitinho que ele queria, de couro, com o solado quadrado. Ele perguntou: o senhor faz? Meu pai disse: faço”, conta. Ao receber a encomenda, antes de pagar, o rapaz fez uma revelação: A sandália não era pra ele, era uma encomenda do ex-coronel da guarda nacional Virgulino Ferreira da Silva, o famoso – e temido – Lampião. “Meu pai teve foi medo, mas vendeu a sandália. Fez o trabalho, né?”

A partir daí Lampião virou cliente assíduo. É importante dizer que o traje era parte importantíssima da vida do cangaceiro. Primeiro porque oferecia a proteção necessária para viver no ambiente pouco confortável da caatinga. Depois, porque oferecia alguma possibilidade de camuflagem. As sandálias com o solado quadrado serviam para despistar a polícia. Quando os soldados examinavam as pegadas, era impossível descobrir para qual direção os cangaceiros haviam ido. Mas há também outra questão que torna a indumentária tão importante para aqueles homens e mulheres. No livro Estrela de Couro – A Estética do Cangaço [2010] o pesquisador Frederico Pernambucano de Melo cita o que ele chama de “blindagem mística”, que  seria uma espécie de proteção (não só física, mas também espiritual) que os cangaceiros creditavam a cada peça e detalhe de seu ornamentado figurino. Desenhos, arabescos em couro, patuás, penduricalhos, cada um tinha uma função, além do vestir e adornar. Somado a tudo isso ainda existia a vaidade natural dos bandos. No mesmo livro, há uma passagem onde o autor diz que “o bando de Lampião, sobretudo nos anos 1930, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”. O próprio Lampião gostava de bordar à máquina e o fazia como forma de premiar os seus discípulos preferidos. Quando um cangaceiro do bando ganhava a confiança do Coronel, era comum que recebesse alguma peça bordada de presente, confeccionada por Lampião.

A indumentária do cangaço era tão marcante que há relatos de que até a polícia se deixou seduzir pelo street style da caatinga e passou a vestir de forma semelhante. Situação que fez um comandante emitir comunicado oficial proibindo os soldados de usarem qualquer coisa que não fizesse parte do uniforme em vigor, tais como “cartucheiras cowboy, chapéus exagerados à Lampião, enfeites amarelos nas bandoleiras e alpercatas de todo enfeitadas”, como consta em documentos oficiais da época.

 

Depois dos cangaceiros, sapatos pras madames

Em meados de 1938, na cidade de Angicos, interior de Sergipe, foi dado cabo de Lampião. A morte ao lado de Maria Bonita, sua companheira de jornada, e mais nove cangaceiros era o desfecho da determinação do então presidente Getúlio Vargas de eliminar qualquer foco de deserdem do território nacional, que desafiasse as autoridades policiais e o sistema politico centralizador do seu regime. E Lampião, dos três subgrupos de cangaceiros que vagavam em busca de justiça, emprego e cidadania, fazia parte do que era considerado mais perigoso: o dos dependentes, com características de banditismo.

Com o fim da luta revolucionária, a clientela voltou a ser composta apenas por vaqueiros. E foi essa freguesia que Seu Espedito herdou do pai. As selas e as roupas encouradas que ele confeccionava em Nova Olinda e levava para vender nas feiras da região faziam muito sucesso. Conversando com o artesão dá para entender de onde vem a preferência dos vaqueiros por suas peças. “O vaqueiro gosta de ‘tá’ o tempo todo vestido de vaqueiro. Aí a roupa tem que ser boa pra ele ficar bem o tempo todinho. Se você faz uma roupa feia, sem jeito, os outros vaqueiros ficam falando do cabra”, explica, e, sem perceber, aclara o diferencial de sua confecção: ergonomia e modelagem.

Mas o tempo foi passando, o gado sumindo e os vaqueiros também. De uns anos pra cá o vaqueiro trocou o cavalo pela moto e o chapéu de couro pelo boné – sempre com alguma propaganda de político. Não há mais o trabalho de entrar na caatinga atrás de uma reis desgarrada. As poucas cabeças de gado que ainda se criam no Cariri estão dentro dos currais. É uma profissão em vias de extinção.

Seu Espedito chegou a achar que o artesanato em couro também iria acabar. E nutria com tristeza uma vontade de mostrar seu trabalho pro mundo, antes que as novas gerações desconhecessem totalmente o artesanato sertanejo. “Eu pensava comigo, meu Deus, será que ninguém vai dar fé d’eu? Eu sei fazer esse trabalho tão bonito, que aprendi com meu pai, que aprendeu com o pai dele, e por aí vai. E será que eu nunca vou mostrar isso pro mundo?”, confidencia o artesão. E eis que um dia alguém encomenda uma sandália igual àquelas que o pai de Seu Espedito fazia para Lampião. O boca a boca pela região espalhou e de vez quando alguém aparecia querendo uma sandália “estilo Virgulino”. Mas ainda não era o reconhecimento que Seu Espedito merecia.

 

Ingresso no calendário da moda

Aos poucos ele foi ganhando fama pelo interior do Nordeste como “o sapateiro de Lampião”. Até aí sem grande repercussão além das fronteiras do Cariri. Até que recebe um encomenda importante: a Cavalera queria usar as sandálias de Seu Espedito no desfile da São Paulo Fashion Week, no verão 2005/2006. Uma mexida no design, uma cor aqui, outra ali, o estilo foi mantido, mas com uma pitada de modernidade. E as sandálias do “sapateiro de Lampião” foram parar na passarela mais importante para a moda do país. O resto da história não é difícil imaginar: as criações de Seu Espedito caíram no gosto da gente da moda e ficaram conhecidas no Brasil inteiro e até no exterior.

Gganhou as telas do cinema um ano mais tarde. Na sétima arte, Espedito calçou e vestiu o ator Marcos Palmeira, protagonista da película “O homem que dasafiou o Diabo” – uma adaptação do romance “As pelejas de Ojuara”, do escritor Nei Leandro de Castro. Além do vestuário, incluiu móveis na produção. Só não mexia com a madeira, mas o revestimento em couro era todo cortado, costurado e pintado por ele com anilina.

Hoje ele produz bolsas, sandálias, botas, sapatos, cintos, malas, bijouterias e tantas outras peças em couro. Até alguns móveis entram na produção. Tudo com aquela carinha de sertão, mas com o toque da criatividade de Seu Espedito, que parece não se esgotar. Cada peça é única e diferente da outra. E o repertório dele não acaba. O ateliê dele em Nova Olinda já é ponto turísitco da cidade. Foi ele também quem vestiu Marcos Palmeira para o papel de Ojuara, na adaptação para o cinema do livro de Nei Leandro de Castro.

Seu Espedito passeia entre a tradição e a modernidade com maestria. O design das peças que ele cria é incrível justamente por aliar tão bem o design do cangaço com os anseios estéticos de quem consome moda contemporânea. Essa é a força e o encantamento da obra dele.

Imagem da matéria publicada na Living For

PS.: Todas as fotos foram feitas na exposição sobre Espedito Seleiro que esteve em cartaz no Museu do Objeto Brasileiro, em São Paulo, até semana passada.

PS2.: Vale a pena baixar a revista no seu tablet para conferir a matéria completa. O trabalho gráfico ficou bem bonito casadinho com o texto. Tem os links de todas as edições da revista aqui.

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E já que estamos falando tanto nos anos 20…

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Carey Mulligan, linda em cena do novo filme

Com a estreia do filme O Grande Gastby (mais uma versão do clássico livro de F. Scott Fitzgerald), só se fala no figurino anos 20 e na influência dos “Anos Loucos”  na moda atual.

E aí eu achei oportuno republicar uma matéria que fiz para a revista Glam sobre o fim do século XIX e início do século XX em Natal.

Apesar de ser um resgate histórico da moda e dos costumes da cidade, diz muito sobre a passagem de século no mundo como um todo. E tem algumas curiosidades legais 🙂

Vamos lá?

♡♡♡

Na virada do século XIX para o século XX o mundo vivia um momento de muita expectativa e grandes transformações. Uma passagem de século não é coisa pequena para a mente humana. A geração atual viveu coisa parecida recentemente e lembra como foram tensos os dias que antecederam o esperado e temido “bug do milênio”.

Mas, voltando a 1899… As transformações advindas da revolução industrial haviam modificado plenamente o cotidiano das pessoas. Os produtos industrializados davam a sensação de conforto, pois diminuíram ou até eliminaram certas tarefas cotidianas. A força humana em várias ocasiões começava a ser substituída pela eletricidade. Passou-se a admirar a ciência e a tecnologia como as mais maravilhosas expressões do homem. Esse período de euforia ficou conhecido como “Belle Époque” – a expressão em francês para “bela época” se deve ao fato de que Paris era então a capital do mundo, e o francês o idioma dominante.

Acompanhando o clima de festa, a moda na Belle Époque era tão efusiva quanto as pessoas. Os espartilhos afinavam a cintura e estufavam o peito, formando uma silhueta em S. Os vestidos eram cheios de rendas, bordados, babados e detalhes. As mangas longas iam além da metade das mãos. As roupas riquíssimas arrastavam no chão – mas isso não era um problema para a alegre classe dominante, pois a tecnologia havia trazido também a limpeza e os cuidados com higiene e saneamento nos grandes centros urbanos. Os chapéus e leques eram verdadeiras arranjos, ostentando penas e até mesmo pequenas esculturas.

Esse período vai do fim do século XIX até o início da Primeira Guerra, em 1914. O grande conflito mundial acaba com a Belle Époque quando a mesma ciência e a tecnologia que facilitavam a vida das pessoas, passaram a produzir armas e mecanismos de guerra que serviam unicamente para matar. É uma quebra de pensamento. O homem passa a perceber que tem em mãos o poder de usar o conhecimento para o bem ou para o mal.

A guerra acaba com a sensação de euforia e imprime novos costumes. Quando termina, em 1918, o mundo não é mais o mesmo. As roupas perderam o excesso de fru-frus. Costureiros como Paul Poiret libertam a mulher dos espartilhos, e a nova silhueta não marca a cintura. Começa a era dos vestidos retos, com cintura deslocada, que se transformariam em tubinhos. Com a chegada dos anos 20 esses vestidos ganham franjas para balançar ao som do jazz e do charleston. As barras das saias sobem, mostrando mais pele. O mundo, recém saído de uma tragédia, resolve tirar o pé do freio e se permitir mais. Mais festas, mais sexo, mais bebida. Esse período que se inicia logo após o fim da guerra, fica conhecido como “Os anos loucos”. A figura da Melindrosa, com seu cabelo à la garçonne, olhos pintados, piteira sempre fumegando, ousada, permissiva e divertida, entrou para a história como ícone desses anos loucos.

A milionária americana Peggy Guggenheim usando vestido de Paul Poiret

A prolongada Belle Époque na esquina do continente

Natal não sentiu os efeitos da Primeira Guerra Mundial. A moda parisiense da Belle Époque continuou sendo reproduzida por aqui, mesmo quando a Europa estava devastada e as roupas haviam perdido a maioria dos enfeites. Por isso, muitos autores – entre eles Tarcísio Gurgel, autor de Belle Époque na Esquina – consideram que a “bela época” potiguar se estendeu até os anos 30.

Com a chegada do cinema nos anos 20, a estética parisiense deixou de ser a única a ser seguida e passou a dividir o espaço com a estética Hollywoodiana. O modelo de beleza agora era também a atriz de cinema, e Natal dava seus primeiro passos rumo à americanização. As mulheres esperavam ansiosas as revistas de cinema que chegavam à Livraria Cosmopolita, na rua Dr Barata. Era delas que saiam os penteados, as roupas e a maquiagem que as potiguares mais abastadas iriam usar nos bailes do Natal Club. A vida noturna da cidade fervilhava nos clubes. As festas eram animadas pelas jazz bands ou pelo tango – que durante muito tempo foi até mais popular que o jazz na cidade. “Esses clubes eram estritamente masculinos durante o dia, mas à noite realizavam festas onde os homens levavam suas senhoras.” conta Márcia Marinho, historiadora.

O Natal Club foi inaugurado em 1906 e durante muitos anos foi a mais renomada instituição de lazer para a elite natalense. Mais tarde, em 1928, com o boom da aviação, surge o Aeroclube – que existe até hoje na cidade. O “Aero”, além das atividades de aviação, reunia num só lugar os espaços para esporte, recreação e festas noturnas. Esse estilo de clube acompanhava os novos gostos do natalense. A prática de esportes havia sido incorporada à rotina da cidade, como parte importante para a sociabilidade e o lazer. Primeiro os esportes náuticos, com as regatas no Potengi; e mais tarde, o futebol. Foram fundados os clubes ABC e América em 1915, e Alecrim em 1916. Quando chegam os anos 20 o natalense já adquiriu o hábito de assistir às partidas de futebol aos domingos, como faz até hoje.

“As leis da moda” num anúncio da revista Cigarra 

Cena de O Grande Gatsby 

Descobrindo as roupas de banho

Ao mesmo tempo, a praia passa a ser percebida como um espaço para diversão e lazer. Antes disso, apenas os doentes tomavam banho de mar, pois a prática era recomendada pelos médicos como tratamento para várias doenças. Quando o natalense descobre a praia, a moda acompanha a novidade.

Os primeiros trajes de banho eram pesados e cobriam praticamente todo o corpo. Em “Belle Epoque na Esquina”, Tarcísio Gurgel transcreve trecho do livro “Reminiscências”, de Octavio Pinto, onde é descrito o complicado ritual dos primeiros passeios praianos em Natal: “Iniciando o verão, a costureira Santa (…) fazia para as minhas irmãs as roupas de banho de fenda azul encorpada, com frisos brancos, compreendendo uma calça tipo bermuda, com um elástico na boca que prendia no meio da perna. E a túnica com meia manga com cinto de pano branco, mais parecendo um macacão. Os rapazes usavam calção e camisa esporte. Nunca tiravam a camisa. Pela manhã muito cedo, antes do sol nascer, tomávamos o bonde defronte de casa, na Av. Deodoro. (…) Saltava-se no final da Av Atlântica, em Petrópolis, e de lá se descia a ladeira até a Casa de Banhos, que tinha duas filas de quartos onde se mudava a roupa. A praia a princípio se chamava do Morcego, depois mudando para do Meio, porque ficava entre as praias de Areia Preta e a do Forte dos Reis Magos. (…) Também ia conosco um empregado  com um cesto para trazer as pesadas roupas molhadas (…)”.

A curta e intensa vida da Cigarra 

Foi nos anos 20 também que circulou uma das mais emblemáticas revistas já editadas na Cidade do Sol. A revista Cigarra teve vida curta porém intensa. Foram apenas cinco edições – entre os anos de 1928 e 1930 – mas era feita por colaboradores que entrariam para a história das letras potiguares, como Palmira Wanderley, colunista fixa da publicação.

A revista contava com o talento do desenhista Erasmo Xavier, responsável pelas capas de todas as edições e pela maior parte das ilustrações. Nascido em 1904, Erasmo passou a juventude no Rio de Janeiro e também atuava como cenógrafo, fotógrafo e chargista. A pesar de jovem, o rapaz já era destaque na imprensa carioca com seus desenhos e ilustrações. Colaborou com publicações como O Malho, Fon Fon e Tico Tico, trabalhando ao lado dos grandes desenhistas brasileiros da época e assinou a capa de uma edição da emblemática revista O Cruzeiro. Esta capa ele não chegaria a ver impressa, pois foi publicada em 1933, três anos após sua morte. Assim como tantos jovens talentosos da época, a carreira de Erasmo Xavier foi precocemente interrompida pela “peste branca”, a turbeculose. Morreu antes de completar 26 anos. Os desenhos dele, principalmente as personagens femininas, retratavam os anseios de uma Natal ainda conservadora, dividida entre o desejo de ser metrópole e as limitações morais de ainda ser província.

Capa da edição 3 da Cigarra, por Erasmo Xavier

A praia, o esporte, o crescimento urbano, o cinema, a música… Tudo influenciava o comportamento da cidade que começava a crescer. A moda incorporava todas essas mudanças. As casas de tecido eram o ponto de encontro onde as senhoras compravam as fazendas que iriam se transformar em belos vestidos. Uma das mais famosas era a casa Paris em Natal, na Praça Augusto severo, cujo marketing era justamente fazer alusão aos tão desejados tecidos usados pelas parisienses. Ainda não havia chegado a vez das lojas de roupas. Tudo passava pela costureira. Uma imagem numa revista de moda francesa do pré-guerra e uma atriz num cartaz de filme americano, eram a inspiração para o mesmo vestido de baile potiguar.

E tentando copiar Paris e Hollywood, quem diria, a Natal do início do século XX acabava tendo um estilo próprio – mezzo Belle Époque mezzo Melindrosa.

 

Para continuar no tema…

 

Veja – Meia Noite em Paris (Woody Allen); O Grande Gatsby (Baz Luhrmann).

Leia – Gisinha (romance potiguar de Polycarpo Feitosa); Belle Époque na Esquina (Tarcísio Gurgel); Natal também civiliza-se (Márcia Marinho).

 

 

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Carrie Bradshaw da vida real – Minha matéria com Lalá Noleto na Glam*

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*Mês passado foi publicada na Revista Glam uma matéria que fiz com a blogueira Lalá Noleto quando ela esteve em Natal participando de um evento. Eu já “conhecia” Lalá de outra vez que ela veio a Natal para o casamento de uma amiga. Deixei um exemplar da revista Salto Agulha com ela e algumas comidinhas potiguares, como castanha de caju e bala de coco =). Ela foi super atenciosa, me ligou para falar da revista e mantivemos contato pelo twitter desde então. Daí ela veio para o lançamento de uma das coleções do estilista Wagner Kalieno e eu paroveitei para bater um papo com ela e escrever sobre toda essa história de blogs, blogueiras, moda e comunicação. O resultado – para quem ainda não viu na revista – foi esse aí embaixo 😉

Escrever, comprar sapatos e frequentar fashion shows.

Essa era, basicamente, a rotina de Carrie Bradshaw no seriado Sex and the City, e um estilo de vida que passou a ser o sonho de muitas mulheres. Quem não daria todos os tesouros (incluindo os guardados no closet) para  viver frequentando os melhores eventos de moda, escrever sobre eles e ainda ganhar dinheiro pra isso? Todo mundo, né? Até porque o closet seria rapidamente reabastecido com os presentes que você ganharia das marcas.

Antigamente, ser jornalista de moda era o posto que mais se aproximava do sonho “estilo Carrie Bradshaw de ser”. Hoje, o cargo de blogueira é o que carrega todas essas expectativas. Lalá Noleto é uma das blogueiras mais conhecidas do país. Por causa do blog, está sempre viajando para participar de lançamentos, desfiles e inaugurações. Ela esteve em Natal para o lançamento da coleção do estilista Wagner Kalieno. Tudo muito corrido, agenda apertada, outros eventos em outras cidades à espera da blogueira.

O roteiro varia pouco: chegada, “almocinho” num restaurante charmoso de cada cidade, presentes esperando no hotel, salão de beleza, cabelo, maquiagem, escolha do look do evento, aparição pública, conversa com as fãs, fotos, fotos, fotos e, ufa!,  aeroporto de novo. Tudo devidamente registrado no Instagram e os melhores momentos em post no blog depois.

Entre a escova e a maquiagem na cadeira do salão de Abiss, conversei com Lalá para entender como a menina que escrevia blogs por hobby na adolescência fez disso sua profissão, e como funciona a engrenagem dos blogs de moda hoje no país.

Do direito à moda

Marcela Noleto nasceu em Goiânia, é formada em direito e chegou a trabalhar  em um dos maiores escritórios de advocacia da cidade. Quando criança, sonhava em ser dona de uma loja de vestidos de noiva. Vem de uma família de médicos e o vestibular para medicina também foi uma opção. Acabou passando para direito e seguindo a carreira jurídica, mas em pouco tempo percebeu que não identificava com a profissão. Não se via trabalhando por muito mais tempo naquilo.

Desde adolescente gostava de ler e escrever blogs. Sempre foi comunicativa, e adorava moda. A história de Lalá começou a tomar outro rumo quando ela conheceu algumas pessoas que trabalhavam na revista Contigo!. Querendo mudar de profissão, fez uma proposta para escrever uma página sobre moda na revista, em formato de blog. O projeto foi aceito e, ainda morando em Goiânia, começou a escrever para a revista.

Depois de um tempo colaborando de longe, a Contigo! reformulou o site e Lalá ganhou espaço também na página da revista na internet. Foi o momento em que ela se mudou para São Paulo e passou a colaborar também com outras publicações, como a Playboy. No site da Contigo! Lalá assinava um blog que passou a fazer muito sucesso entre as leitoras. Assim nasceu o Blog da Lalá.

O blog Falava de moda, e, principalmente, decifrava os looks das famosas. Sempre que alguma atriz aparecia usando um vestido deslumbrante, era correr pro Blog da Lalá e ter a certeza de que ela iria descobrir de onde era a peça e informar às leitoras. “No fundo eu gosto mais de comunicação do que de moda”, costuma dizer Lalá.

Algum tempo depois o blog havia crescido tanto, que chegara a hora da blogueira caminhar sozinha. Hoje o Blog da Lalá faz parte também do F*Hits, um grupo que se define como “A primeira prime network de moda do Brasil”. Noves fora o estrangeirismo, é uma rede que faz a ponte entre as marcas de moda e os blogs. Os clientes da rede aparecem nos blogs das meninas em eventos e “looks do dia” e as leitoras que se encantarem pelas peças podem adquiri-las em apenas um clique, na F*Hits Shop.

Hoje quando não está blogando, Lalá está… Blogando! “Não desligo do blog. Nossa, eu acho que eu só faço isso mesmo: pensar e trabalhar para o meu blog”, conta a moça que diz não ter um hobby específico, e trabalhar todos os dias da semana – menos no domingo. Lalá conta que não imaginou nem planejou essa trajetória, e que não tinha o objetivo de ter o blog como sua profissão. “Eu sempre achei que ia viver de revista. Sou uma pessoa de pouco planejamento, as coisas vão acontecendo e eu vou acompanhando. Sempre gostei de escrever e queria viver disso, o que aconteceu com o blog não foi planejado”, explica.

Talvez esse tenha sido o grande pulo do gato das blogueiras que dominam o mercado hoje. Sem imaginar exatamente onde iam acertar, elas atiraram com mais desprendimento, cada uma à sua maneira. O mercado foi mudando e o hobby ganhou a possibilidade de ser negócio.

Atualmente surgem novos blogs todos os dias e a maioria deles tem o claro objetivo de ser como Lalá e suas companheiras do F* Hits. São blogs que já nascem com suntuosas festas de inauguração e Media Kit pronto. Geralmente não dá certo. O blog não “pega”, não tem naturalidade. Lalá acha que é aí que as novas blogueiras erram. “Acho muito difícil acontecer o que aconteceu comigo de novo com outra pessoa. Na situação atual ela vai ter que ralar muito ou ser uma pessoa já conhecida, porque o mercado já está estabelecido”, opina.

Então, no mar de possibilidades que é a internet, não haveria mais espaço para novos blogs de moda? “Espaço existe sim, mas para coisas diferentes. O grande erro é que tem muita gente começando querendo fazer exatamente igual ao que já existe”, completa.

Não é à toa que as meninas querem copiar as blogueiras. Os blogs estão cheios de anunciantes e a maioria das moças aparenta – pelo menos na internet – ter um padrão de vida muito mais alto que a população “normal” brasileira. Afinal, vestem marcas caras, viajam com frequência ao exterior e frequentam lugares luxuosos. Um tempo atrás a revista Veja publicou uma matéria com a blogueira Lalá Rudge, dizendo que ela chegava a faturar R$ 100.00 por mês com o blog. A notícia rendeu muito bafafá e a blogueira depois disse que a revista não foi fiel às suas declarações. As moças não falam em números de seus faturamentos, mas a imaginação das aspirantes a blogueiras vai longe e só cresce o número de meninas que querem ser ricas e famosas através de um blog de moda.

Vivendo exclusivamente do blog hoje, Lalá Noleto conta que nunca prospectou clientes e que nega parceria com marcas que ela acha que não têm o perfil de seu site. “Nunca fui atrás de cliente nenhum. Eles que sempre me procuraram. E se a marca não tem a ver comigo, eu não aceito. Já neguei muitas parcerias para ser fiel ao estilo do blog e para não soar fake”, conta.

Sobre a relação com as colegas de profissão, ela diz que, ao contrário do que se pensa, as blogueiras se dão muito bem e são companheiras. “Não existe isso de rivalidade, as meninas se dão muito bem. Começou todo mundo meio que ao mesmo tempo, então todo mundo tinhas mesmas dúvidas, passava pelas mesmas situações e a gente se ajudava”, explica. É ifícil para quem está de fora imaginar tamanha cordialidade num universo onde pulsam vaidade, ego e dinheiro, como é a mídia de moda hoje.

Chega ao fim a escova da blogueira e também é o fim da nossa conversa. Ela tem que correr. Vai posar para fotos e seguir para o aeroporto. Descansar quando chegar em casa? de jeito nenhum! Tem mais compromissos do blog esperando. Tudo muito rápido, acelerado. Assim como a moda e as transformações que os blogs promoveram na roda da comunicação.

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